Bom dia a todos, força plataforma.
A s redes sociais condensam o mundo, tudo parece ali mesmo, coisa que acontece com a Tempestade Ingrid que pela descrição do que pode acontecer em Portugal está a alarmar alguns madeirenses. O meu texto é para esclarecer em vez de usar notícias como forma de captar pageviews.
Embora a tempestade Ingrid seja um fenómeno de grande impacto para Portugal Continental, a sua passagem pela Madeira terá contornos distintos. Este é o meu resumo sobre as previsões para os próximos dias 22 a 24 de janeiro próximos.
A depressão Ingrid está a deslocar-se pelo Atlântico Norte em direção ao Golfo da Biscaia. O "centro" da tempestade não passará diretamente sobre o arquipélago, mas as suas frentes associadas e, sobretudo, o seu campo de ventos afetarão a Madeira. Este será o fator mais crítico para a região. O IPMA já emitiu avisos específicos.
A Costa Norte da Madeira e Porto Santo estão sob Aviso Laranja. Espera-se uma forte agitação marítima a partir de dia 23 de janeiro, com ondas de noroeste que podem atingir 5 a 6,5 metros de altura significativa, e picos máximos de até 12 metros. Na Costa Sul temos Aviso Amarelo, com ondas de oeste a chegar aos 4 metros na parte mais ocidental da ilha.
Ao contrário do que se prevê para o Continente (onde a Ingrid vai trazer um nevão histórico), na Madeira o impacto será mais moderado. Estão previstos períodos de céu muito nublado e aguaceiros, que podem ser mais frequentes nas vertentes norte e zonas montanhosas. Não se espera, para já, precipitação persistente ou torrencial como a que ocorreu no início do mês.
Devido à descida da temperatura em altitude, há uma probabilidade elevada de queda de neve nos pontos mais altos (Pico do Areeiro e Pico Ruivo) entre os dias 22 e 23 de janeiro.
O vento soprará de moderado a forte de Noroeste, com rajadas que podem atingir os 70-80 km/h nas zonas expostas e terras altas.
Quanto à temperatura, será notada uma descida gradual, tornando o tempo "invernal". No Funchal, as máximas devem rondar os 18°C, mas a sensação térmica será menor devido ao vento.
A "Ingrid" chegará à Madeira principalmente sob a forma de temporal marítimo. O maior perigo reside na costa norte e no Porto Santo devido à ondulação severa. Por isso se recomenda especial cautela nas atividades náuticas e junto à linha de costa. Em princípio, a nova obra no litoral de São Vicente será testada, a orientação das ondas
São Vicente
A tempestade Ingrid será, sem dúvida, o primeiro grande teste de resistência para a nova obra de requalificação da Frente Mar de São Vicente que, foi desenhada precisamente para lidar com o histórico problema de galgamentos marítimos que frequentemente inundavam a marginal e afetavam os estabelecimentos locais.
A peça central da requalificação é a nova muralha de proteção construída junto à zona de restauração. A Ingrid traz ondas de Noroeste (NW) com altura máxima prevista de 12 metros. Esta é a orientação mais crítica para São Vicente, pois a energia do mar entra diretamente na baía. Observaremos a eficácia da muralha em quebrar a energia da vaga e evitar que o calhau seja projetado. Lembro que um dos pontos mais polémicos durante a fase de projeto (criticado por associações ambientais) foi o avanço de certas estruturas de betão sobre a praia de calhau, o que diminuiu a praia que amortece o impacto das ondas.
A obra será testada com a força de um Aviso Laranja, vamos perceber se conseguirá infiltrar-se sob o pavimento ou causar danos na base da estrutura por via da erosão (o chamado "efeito de sucção" do calhau).
Os críticos da obra alertaram que a rigidez da nova marginal poderia impedir a adaptação natural do calhau às tempestades. A Ingrid servirá para verificar se a praia mantém a sua capacidade de proteção natural ou se o mar "ataca" a estrutura com mais violência devido à falta de espaço para a dissipação de energia.
A atenção deverá estar nas próximas 48 horas, com o pico da maré, o momento mais crítico será a conjugação da ondulação máxima com a maré alta.
É de esperar que pelo facto de ser uma obra terminada há pouco tempo, o seu comportamento sob condições de Aviso Laranja seja monitorizado de perto tanto pela autarquia como pela população local, que historicamente convive com a fúria do mar do Norte.
Nota: Resalvo que escrevo com os últimos dados que tenho, o estado do tempo pode mudar rapidamente, aconselho a consultar as atualizações em tempo real do IPMA Madeira: link
