Revolução de conveniência

A Presidência da República é a mais alta segurança constitucional da democracia portuguesa. Existe para garantir estabilidade, contenção e respeito pelas instituições, principalmente quando a tensão cresce e o ruído substitui o juízo. Os resultados na Madeira não surgem do nada. Revelam frustração acumulada, cansaço social e uma desconfiança profunda na política.

Essa riqueza merece ser ouvida. Reflete pressão econômica, dependências antigas, promessas adiadas e a sensação persistente de que o poder protege sempre os mesmos. Ignorar isto seria negar a realidade. Mas convém perguntar: que tipo de “revolução” é este que se proclama sem risco? Se o impulso fosse realmente disruptivo, não teria escolhido o caminho mais confortável da provocação mediática. Teria enfrentado o poder real, histórico, enraizado. A rebeldia de ocasião prefere o aplauso fácil à coragem difícil. Confunde barulho com mudança e choque com transformação.

A experiência ensina que sociedades cansadas tendem a confundir liderança com grito. Trocam governo por figura, projeto por pose. A história recente da região mostra como a personalização do poder cria hábitos: o culto do chefe, a tolerância ao excesso, a normalização do mando.

Quando a política se reduz a um palco, o autoritarismo surge travestido de novidade. É legítimo o protesto. Não é legítimo transformar a mais alta magistratura num instrumento de ressentimento. A Presidência não é um desabafo coletivo nem um megafone de raiva. É um ponto de equilíbrio. Não sirva para incendiar, mas para conter. Não prospera no conflito permanente, mas na disciplina institucional. A Madeira não é um problema a condenar. É um sinal a ser interpretado. Onde a mobilidade social estagna, o clientelismo resiste e a confiança se desgasta, cresce o apelo de soluções simplistas.

Hoje ali, amanhã outro lugar. As democracias adoecem quando a política abdica da razão e se entrega à caricatura. Há quem chame a isto despertar. Outros chamam-lhe coragem. Convém ser rigorosamente: não há virtude em trocar pluralismo por devoção, nem lucidez em substituir política por culto. O que se apresenta como ousadia é, muitas vezes, apenas uma repetição de velhos reflexos com linguagem nova. Portugal precisa de uma Presidência séria, capaz de unir sem gritar, de concordar sem humilhar, de representar todos, inclusive os que discordam. Uma instituição que impõe respeito pela sobriedade, não pelo choque. Que proteja a democracia do seu pior inimigo: a tentativa de confundir força com razão. A segunda volta não é um protesto. É uma responsabilidade. A escolha é simples: fortalecer a República ou explorar a instabilidade permanente.