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Vizinhos

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O teu Deus é judeu.
A tua música nasceu em África.
O teu carro veio do Japão.
A tua pizza é italiana.
O teu gás é argelino.
O teu café foi colhido no Brasil.
A tua democracia vem da Grécia.
Os teus números são árabes; as tuas letras, latinas.

A

ivemos rodeados de empréstimos: ideias, sabores, modos de ver. Tudo o que nos define é, em boa parte, uma colecção de estranhos presentes. E, ainda assim, há quem empunhe a palavra “estrangeiro” como se fosse um escudo para esconder a sua própria mistura.

Eu sou teu vizinho. Não sou um mito nem um luxo, sou a soma das trocas que recusas reconhecer. Quando apontas o dedo ao outro, esqueces que o teu dia começa com um grão cultivado longe; que aquilo que cantas, comes e calculas chegou até ti por mãos alheias.

Chamar-se-estrangeiro a quem partilha a rua é recusar a história comum. É recusar a evidência de que a nossa vida é construí­da em conjunto, por migrações, encontros, trocas e resistências. Reconhecer isso não diminui ninguém; humaniza todos.

Se a identidade é um mosaico, então a única coerência que sobra é a escolha: viver de portas fechadas ou viver de portas abertas com sentido crítico. Ser vizinho é aceitar essa escolha. Ser humano é escolher a comunhão em vez do medo.

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