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O abate continuado das quintas madeirenses.

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om cadência vamos vendo as quintas madeirenses a serem abatidas no Funchal. Chegou a vez da Quinta das Tangerinas, é mais um exemplo do que as associações de património chamam de "apagão do Funchal antigo".

Embora menos famosa que as grandes quintas hotéis (como a Quinta Vigia ou Magnólia), a Quinta das Tangerinas é um exemplar da arquitetura senhorial de média dimensão que definia a cintura urbana do Funchal até ao século XX. Consta na Matriz Descritiva das Quintas Madeirenses do PDM do Funchal, significa que a própria Câmara já tinha reconhecido o seu valor histórico e arquitetónico, o que torna a demolição um ato de contorno das próprias regras municipais. Claro que sabemos que mudam as pessoas, os partidos e as vontades. Aperfeiçoa-se o abate, quase só se sabe depois de demolido.

Anda o Albuquerque a tentar "comprar" um Museu do Romantismo, ai por fora, e este património edificado "foi" o modelo de "vivienda" romântica, com jardins de lazer mesclados com pequenas áreas agrícolas (como o nome sugere, pomares de citrinos), muros de pedra aparelhada e portões de ferro trabalhados.

Para a memória histórica, agora só nos livros, Santa Luzia era a zona das "águas e dos jardins". A demolição desta quinta destrói a escala humana da freguesia, substituindo a pedra e o verde por betão de alta densidade. Clap, clap, clap... o madeirense tolera e aceita, deixem passar uns dias. Tudo esquece, qualquer dia até a identidade.

As quintas madeirenses não são apenas casas, são ecossistemas urbanos com sistemas de rega próprios (levadas), muros que criam microclimas e uma organização social específica. Quando se deita abaixo a "casa-mãe", perde-se a chave de leitura de todo o terreno envolvente.

Como nota a associação GENUS e do JPP, restam cada vez menos exemplares destas quintas que não foram "canibalizadas" por prédios. Cada uma que cai torna a Madeira mais parecida com qualquer outra cidade genérica de betão, perdendo o seu diferencial turístico e cultural. Mas isso que importa, venha mais turismo "besta" e pelos vistos resultados eleitorais. Mas de novo, que importa? De algibeiras cheias.

Se o imóvel está inventariado, qualquer intervenção exigia uma autorização expressa e fundamentada que provasse que a ação não prejudicava o valor histórico. O facto de a GENUS e a oposição denunciarem a falta desta documentação sugere um fait accompli (facto consumado), deita-se abaixo primeiro, paga-se a multa depois, e o lucro do prédio de luxo compensa tudo.

Jorge Carvalho, tens a tua primeira medalha de ouro, agora é sempre a descer, és mais um pau mandado igual aos outros. Mais uma vez, é o exemplo perfeito do poder económico dos promotores a se sobrepor à lei e ao património, muitas vezes com a "vista grossa" das entidades fiscalizadoras.

A panelinha prossegue

Enquanto os grupos organizados ocupam as redes a louvar o "progresso"', as máquinas derrubam muros centenários na Travessa de São Luís. A demolição da Quinta das Tangerinas não é um erro administrativo, é a tradução física da política do regime. Onde havia história, agora haverá lucro; onde havia identidade, agora haverá um condomínio de luxo de costas voltadas para a cidade.

Esta quinta é o exemplo vivo (agora morto) de que, na Madeira, o património é visto como um obstáculo ao negócio, e não como uma herança a proteger.

Mas o que importa, o madeirense não se importa e acha que defende estas coisas uns chatos. Até ao dia.

Nunca mais vimos imagens da "nova quinta" que o monopolista dos portos derrubou...


Nota do MO, relacionado: link

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