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Muitos médicos já não são vistos como cuidadores, mas como prestadores de serviços inseridos numa engrenagem económica. Se todos os doentes estivessem bem, os hospitais privados e as clínicas perderiam clientes. A comparação é muitas vezes feita com os mecânicos, se todos os carros funcionassem na perfeição, as oficinas fechariam portas. O mesmo raciocínio é aplicado à polícia: se todos cumprissem a lei, as esquadras ficariam vazias.
Assim sucede também na saúde privada, se todos fossem plenamente saudáveis, muitos estabelecimentos encerrariam e vários profissionais perderiam rendimento, incluindo os seus elevados honorários.
Outro problema da sociedade contemporânea é o seguinte: a minha geração dispõe de mais oportunidades e melhor qualidade de vida material do que alguma vez os meus avós ou bisavós imaginaram. Contudo, apesar dessa abundância aparente, vive num estado de ansiedade permanente.
Ter casa tornou-se um desafio quase inatingível devido ao elevado custo. Ter filhos implica encargos financeiros significativos. E muitos jovens já não estão dispostos a fazer os sacrifícios que os nossos avós fizeram quando se casaram, muitas vezes sem casa própria, sem estabilidade financeira, construindo a vida gradualmente.
Hoje, antes de casar, pergunta-se primeiro pela situação financeira. O dinheiro tornou-se um critério decisivo. E este é, talvez, o verdadeiro problema do nosso tempo, o dinheiro pesa em tudo, condiciona quase tudo e influencia demasiadas decisões.
Muitas vezes deixamo-nos dominar por esta lógica. Os valores tradicionais, éticos, religiosos, comunitários, são progressivamente substituídos por uma cultura de acumulação e de interesse.
Antigamente era comum um vizinho bater à porta de outro para pedir uma colher de sal ou um copo de arroz, e dessa necessidade nascia a conversa, a proximidade e a solidariedade. Hoje, se alguém fizer o mesmo, arrisca-se a ser visto como um incómodo ou intruso, podendo mesmo ser ameaçado com a chamada da polícia por “invasão de propriedade”.
Perdeu-se a empatia. Já poucos pensam, hoje é ele; amanhã posso ser eu.
Vivemos tempos incertos, em que o amor ao próximo parece depender da conta bancária. Quando o dinheiro desaparece, muitas amizades evaporam-se.
É um mundo triste este, onde o dinheiro dita prioridades e define estatutos. Há quem viva exclusivamente para o dinheiro, sacrificando o presente em nome de uma acumulação constante.
Há pessoas tão pobres, mas tão pobres, que tudo o que possuem é dinheiro.
E os restantes valores? Onde ficam? Não serão, afinal, mais preciosos do que qualquer riqueza material?
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