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O Sistema

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Multibancos na Madeira durante as recentes intempéries no continente.
O sistema é frágil.

V

entura vive no sistema, come do sistema, formou-se no sistema, financia-se no sistema e, depois, insulta o sistema como se fosse um insulto moral ser produto do próprio tabuleiro que o fez peça. É esta a hipocrisia em putrefacção: o discurso anti-sistema convertido em carreira, as mãos a mexer os cordelinhos com as mesmas contas, os mesmos financiadores, as mesmas mordomias que dizem combater.

Não é anti-sistema. É um oportunista que veste a contestação como um facto de cerimónia. Fala de pessoas enquanto passeia por salas VIP; promete rutura enquanto troca favores e selfies. A demagogia tem rosto: é o de quem promete limpar a casa com a vassoura do exibicionismo, mas esconde a vassoura alugada debaixo da cama.

Somos muitos a reconhecer a fraude retórica: um líder que se diz contra as elites e se alimenta delas. Um líder que agita a raiva pública enquanto afaga as costas dos financiadores privados. Um líder que transforma o ressentimento num produto de marketing. Esta é a verdadeira política do espectáculo, barata, previsível e perigosa.

A nossa resposta é simples: não nos deixamos enganar pelo palavreado. Não confundimos a indignação legítima com o prazer de ser enganado. Não daremos legitimidade ao teatro da raiva. A política exige responsabilidade, não vendavais retóricos.

Este texto não pede consenso. Exige acusação. Exige que se veja a contradição com olhos nus. Exige que se recusem as falsas soluções servidas como banquete para o ódio. Porque o que está em causa não é apenas uma retórica; é a vida quotidiana das pessoas, salários, habitação, saúde, escolas, que não se resolvem com slogans, retóricas de caça-bodes ou provocações calculadas.

Ventura e os seus não são o antídoto; são a versão envernizada do mesmo problema. O problema é o poder que se disfarça de revolta e usa a revolta para crescer. O problema é quem transforma a frustração em consumo eleitoral. O problema é o espectáculo que substitui o debate.

A rua que queremos é a da exigência informada, da crítica com critério e da acção colectiva. Queremos eleições que não se percam em gritos, mas que se pautem por propostas; queremos cidadãos que não troquem a dignidade por um aplauso momentâneo.

O SISTEMA, afinal, não é aquilo que nos dizem que devemos destruir. O sistema é que os deixa existir, e nós, que deixámos de ser espectadores, temos de o desmascarar.

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