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endo eu um leitor atento, não me espanta que exista um “polvo” nas águas de Machico e Caniçal a alimentar os seus tentáculos. As pescas são um rebuçado apetecível, pequeno à vista, mas grande demais para escapar ao apetite do poder.
É um setor onde nada desaparece por completo, muda de lugar, troca de discurso, aguarda. O polvo pode sair do centro do palco, mas deixa tentáculos ativos e raízes fundas, visíveis nas aproximações políticas discretas, nas alianças improváveis e na circulação insistente de figuras que, alegadamente afastadas, parecem nunca ter realmente saído.
Quando setores que se dizem independentes começam a gravitar em torno de partidos e protagonistas já conhecidos, o sinal é claro. Não se trata de coincidências nem de contextos externos convenientemente invocados. Trata-se de influência. Nas pescas, como no mar, quando a água começa a mexer, raramente é por acaso, e quase nunca sem tentáculos por perto.
Enquanto se jogam estas peças políticas, quem paga o preço são os pescadores, os trabalhadores do setor e as comunidades que dependem do mar. Decisões atrasadas sobre quotas, licenças, apoios e fiscalização significam dias de trabalho perdidos, insegurança económica e desgaste emocional para quem vive de acordar com a maré.
E, como se não bastasse, quando entidades que deveriam ser independentes se aproximam de partidos, a sensação de injustiça aumenta, políticas públicas transformam-se em tabuleiro de interesses, e o “rebuçado” que todos desejam torna-se cada vez mais amargo para quem realmente depende dele.
No fundo, o que vemos é sempre a mesma dança, o rebuçado das pescas alimentou um polvo a atrair apetites, enquanto os tentáculos deste se estendem silenciosamente. O polvo pode mudar de nome, de lugar ou de estratégia, mas permanece. E enquanto os tentáculos não forem cortados, enquanto o setor continuar refém de interesses que não servem quem verdadeiramente trabalha no mar, os pescadores e as comunidades continuarão a sentir na pele o peso de promessas quebradas, discursos vazios e uma gestão que olha para o espetáculo político em vez de cuidar do mar. Porque, no final, o doce das pescas só é realmente saboroso para quem não tem de enfrentar a tempestade todos os dias.
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