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A sintonizar estações...

Um vislumbre sobre a valorização cultural de produção regional.

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T

udo o que fazemos na vida é para dar resposta a algo. Se comemos, é uma resposta racional a uma necessidade fisiológica. Se dançamos, é outra resposta a outro impulso. Estas são relações de causa-efeito muito diretas e cuja justificação está claramente estabelecida e estudada. 

Muitas vezes temos de nos fazer acompanhar de mecanismos, ferramentas, auxiliares para satisfazer um impulso. Por exemplo: se queremos sentir a velocidade, temos de ter um veículo que nos faça andar rapidamente. Se queremos comer com qualidade e arte, temos de ir a um restaurante ou a um chef. Se precisamos fazer uma retrospectiva da nossa vida, talvez um psicólogo nos possa orientar, mas em todos estes exemplos há uma variável que não depende de nós, e à qual nós recorremos para dar a resposta pretendida. O problema começa quando dependemos de variáveis que não controlamos e que quase sempre exigem uma troca: dás o teu dinheiro e dou-te o meu serviço. Ou então, ajudas-me aqui, e eu ajudo-te acolá.

Já desde o séc. XX e anteriores, a Madeira tem apostado na promoção da sua Cultura e também em atividades de entretenimento junto da população e visitantes. 

O paradigma da animação cultural nos hotéis, salões e cafés trouxe um acesso facilitado especialmente à música e à dança.

Nos tempos da Autonomia, o Governo Regional inaugurou espaços para que estes momentos culturais tivessem melhores condições de apresentação, em espaços públicos que estivessem ao serviço de todos. Também algumas autarquias tomaram as mesmas decisões de investimento. Não só investiram em infraestrutura, como também no patrocínio a eventos, ajudando a promover cada grupo residente da sua área geopolítica. 

Por sua vez, a população foi adquirindo hábitos de consumo, começou a frequentar os festivais, os arraiais, as festas temáticas e outros, sempre de forma livre, espontânea, e com uma riqueza de oferta particularmente avultada. Imagine-se, entre os meses de Junho e Setembro, a quantidade de eventos que existem (até em simultâneo) na nossa região. 

É uma população que procura não só o divertimento e o convívio social, mas também procura associar-se ao tema do respetivo evento (como no Mercado Quinhentista, por exemplo). Há ainda uma grande parte da população que procura o artista X ou Y por vários motivos: porque é fã, familiar, curioso ou simplesmente quer conhecer algo novo.

A estas pessoas basta-lhes sair de casa, estacionar o carro e dirigir-se ao local onde irá acontecer esse momento cultural. É fácil, é barato e, acima de tudo, é acessível. 

No entanto... 

  1. se tiver fome, compra comida para sua satisfação, com o seu dinheiro;
  2. se não tiver carro, usa transporte público, pagando com o seu dinheiro;
  3. se encontrar um amigo e convidar para "tomar um copo", paga com o seu dinheiro.

Tudo isto é um paradigma já social, fruto de vários anos de opções políticas, que fazem com que a população tenha perdido a noção e o sentimento de valorização de quando se trata de pagar para ter acesso a um espetáculo de música ou qualquer outro tipo de arte performativa (é claro, existe sempre espaço para a exceção).

Quando nos deparamos com entradas em recintos desportivos com ingressos a custar dezenas de euros, isto faz-nos pensar no equilíbrio de consumo que a nossa sociedade insular demonstra. Salvo artistas de Portugal Continental, músicos ou outro tipo de intérpretes, o artista madeirense não tem reconhecimento público para enfrentar a exigência ao público do pagamento de um ingresso para o seu concerto. Será que não temos bons músicos na região? Será que não existem bandas a fazer boa música? Será que a população não lhes vê qualidade suficiente? A resposta não pode ser outra, é claro que sim! Mas quem é que vai gastar o seu dinheiro hoje, quando noutro dia pode ver o mesmo artista ou projeto no arraial ou festival X ou Y? Dificilmente alguém.

A nossa região não precisa apenas de mais concertos nem mais palcos. A nossa região insular precisa que os responsáveis culturais deixem de subsidiar tudo e todos, e comecem a abrir espaços para que os próprios artistas ganhem asas, e aprendam a conquistar uma plateia; aprendam a manipular a dinâmica de um concerto; aprendam a sentir o público. Pode-se apoiar financeiramente um concerto, cedendo ou pagando os espaços, de si com valores já difíceis de custear pelos nossos artistas regionais, mas não caiamos no contínuo erro de pagar tudo a todos com dinheiros públicos, pois o que está em causa não é a sobrevivência do sector mas sim a capacidade que este tem de evoluir, aprender a valorizar-se e principalmente a tornar-se autossustentável.

Desta forma estaremos a educar públicos; estaremos a ensinar que para comer, é preciso comprar comida, para andar rápido é preciso ter dinheiro para entrar num veículo que ande rápido; para ter acesso à nossa linda e tão rica Cultura, é preciso pagar pois… pagar, é valorizar. A Cultura já é apoiada. Mas apoiar não é alimentar dependências de forma indefinida.

João Caldeira

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