O silêncio das instituições e o medo do voto:
A Madeira entre a amargura e a realidade
A
A entrevista de hoje de D. Nuno Brás ao Jornal da Madeira é um retrato fiel de uma certa elite institucional que parece olhar para a realidade da nossa ilha do cimo do rooftop. Sob o título "Falta de vocações é uma amargura", o Bispo do Funchal não se limita a lamentar o vazio nos seminários, deixa transparecer um desconforto profundo com a própria dinâmica da democracia e com o escrutínio da sociedade moderna.
Impensável mas escrito, o ponto mais crítico da entrevista reside na visão de D. Nuno sobre os processos eleitorais. Ao afirmar que "o excesso de eleições pode matar a democracia" e ao confessar que espera que não as haja "tão depressa", o Bispo alinha-se com uma retórica de estabilidade a qualquer custo que ignora o sentimento de urgência de muitos cidadãos. Nuno Brás parece um militante do PSD-M, do regime, um ideólogo à Trump, tudo deve continuar igual sem eleições.
A democracia alicerça-se no voto! Se há divisão não é anulando eleições que se pacifica, é indo à génese dos problemas que, para mim, estão na Educação, na desinformação, na manipulação de mentes num conceito de gangues, onde deixaram de pensar para fazer parte de claques.
Dizer que o povo sente que o seu voto "não conta para nada" é uma constatação perigosa. Numa região que vive momentos de clarificação política e social, o voto é a única ferramenta de regeneração, única senhor Bispo! Desvalorizá-lo, sob o pretexto da estabilidade, é preferir o conformismo à transparência. A democracia não morre por votar demais; morre quando as instituições se fecham sobre si mesmas. Sem votos há ditadura, já basta o que alguns fazem na democracia para torná-la num camuflado de ditadura. Senhor bispo, o povo está farto dos mesmos e das instituições que não funcionam, a Igreja por exemplo é uma máquina de branqueamento de governantes, uma máquina de propaganda para o regime... e volta a fazê-lo nas suas palavras de hoje.
É sintomático que a "amargura" do Bispo se foque na falta de novos padres e não, com o mesmo vigor, na forma como a instituição geriu as sombras do passado. Ao abordar os abusos sexuais como algo "do passado" ou de pessoas que "já nem se sabe quem são", D. Nuno Brás perde a oportunidade de demonstrar uma Igreja verdadeiramente renovada e empática com as vítimas. A amargura parece ser mais institucional do que humana. Até a gestão dos casos de pedofilia foi pouco transparente e então as indemnizações são de "rir".
É preciso mais coragem para enfrentar o escrutínio eleitoral como uma solução, e não como um problema. Senhor Bispo, eu acho que o seu partido, depois de tantas asneiras até se saiu bem, repare que cada eleição é uma sondagem, um plebiscito, um referendo, e os madeirenses voltam a colocar no poder os mesmos, com a sua ajuda, é é por isso que nada muda! Tudo reclama mas mantém o problema. O senhor Bispo não se deve lamentar mas sentir-se feliz, tem o que quer, mesmo que a custo.
O que falta são as Instituições a funcionar de forma independente e a fazer a sua função, é nessa exigência que o melhor desenho da democracia se regenera. Senhor Bispo olhe a quantidade de pobres, é o modelo do seu partido que os faz! Senhor Bispo, reparou que gere a Igreja? É a autoridade máxima e guia espiritual da Diocese do Funchal, se quiser tem muito trabalho para fazer. O senhor Bispo ainda acaba como um "bug" do sistema, vai a caminho de se expurgar dos vírus. NÃO SE LAMENTE, MUDE! Uma Igreja sempre ao lado das ditaduras, políticas ou técnicas, descaradas ou camufladas. Liberte-se, exorcize-se.
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