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Albuquerque e o poder exausto

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iguel Albuquerque está politicamente gasto. Desde 26 de maio de 2024, a sua permanência já não parece mandato, parece insistência. Num regime democrático, o poder não é propriedade privada, nem se transforma em herança, nem se eterniza por hábito. Tem prazo, tem escrutínio e tem limite. Quando esse limite deixa de contar, a democracia começa a fingir que ainda manda.

Na Madeira, esse problema é antigo. Primeiro foi Alberto João Jardim, com décadas de domínio quase absoluto. Depois veio Miguel Albuquerque, com a mesma lógica de permanência, o mesmo culto da centralização e a mesma ideia perigosa de que governar é resistir ao desgaste até ao fim, mesmo quando a confiança pública já se foi embora. A autonomia conquistada para libertar a Região não pode servir de abrigo a chefias políticas sem fim.

É aqui que a questão deixa de ser pessoal e passa a ser democrática. Se na República Portuguesa os mandatos têm duração e limites claros, por que razão a Madeira deve viver sob uma excepção moral e política? Por que motivo a alternância é tratada como detalhe, enquanto a concentração de poder é vendida como competência? A resposta é incómoda: porque a máquina partidária aprendeu a confundir continuidade com mérito, e fidelidade com legitimidade.

O resultado está à vista. Em vez de uma governação centrada na habitação, nos serviços públicos, no salário digno e na protecção dos mais frágeis, insiste-se em obras de prestígio, em projectos discutíveis e numa política feita à medida de grupos económicos, de círculos de influência e de uma elite sempre bem instalada perto do poder. O povo vê o custo de vida subir, a precariedade apertar e a promessa de futuro a encolher. Ao mesmo tempo, o Governo regional parece mais interessado em sustentar a sua própria imagem do que em corrigir desigualdades reais.

A democracia não morre de um golpe. Morre devagar, quando a crítica é tratada como ruído, quando a oposição é desprezada, quando a rotação de cargos é vista como ameaça e quando a permanência no cargo passa a ser apresentada como destino natural. É assim que o poder endurece, fecha-se sobre si mesmo e começa a comportar-se como se estivesse acima da própria comunidade que o elegeu.

Madeira não precisa de donos. Precisa de instituições abertas, de responsabilidade política e de respeito pela ideia mais simples da República: ninguém governa para sempre. A autonomia foi conquistada para ampliar liberdade, não para blindar carreiras. E quando um governo já não serve o povo, serve apenas a sua própria sobrevivência. Nesse momento, já não governa: ocupa.

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