Ontem fiz voo na TAP com um piloto paciente e aterramos, mas depois de muitas voltas. Essas duas bolas da imagem mereciam um desvio até às Desertas e o respectivo regresso para ficar documentada uma indecência ao nosso aeroporto. Coitado não tem culpa, ela é toda do ser humano.
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O Aeroporto da Madeira é mundialmente conhecido pelos seus ventos cruzados (crosswinds) e pela tesoura de vento (windshear). O que estamos a observar agora é um agravamento destes fenómenos por duas vias principais.
O aquecimento global traduz-se em mais energia retida na atmosfera. Para a Madeira, isto significa que os sistemas de alta pressão (Anticiclone dos Açores) e as depressões atlânticas geram gradientes de pressão mais acentuados, resultando em ventos de superfície mais fortes e frequentes.
Os ventos predominantes de Nordeste estão a tornar-se mais instáveis. Ao embaterem na orografia da ilha, a norte, estes ventos criam turbulência mecânica a jusante das montanhas, que afeta diretamente a aproximação à pista 05. O vento contorna a ilha e surge de jacto mais intenso na zona do aeroporto
Há um paradoxo no nosso turismo, o aumento da pegada carbónica, impulsionado por frotas massivas de rent-a-car e pela pressão do turismo desregrado, contribui para o ciclo global que, localmente, se manifesta na maior imprevisibilidade meteorológica. É o "reverso da medalha", promove-se o destino, mas destroem-se as condições de acessibilidade ao mesmo. Dois proveitos não cabem no mesmo saco mas temos esta ironia, naturalmente enquadrados no todo mundial.
Muitos passageiros questionam por que razão um avião aterra e outro não. A resposta reside na Certificação de Tipo e nos manuais de operação (FCOM).
Os limites não são universais, dependem da engenharia de cada aparelho!
Os Aviões com estabilizadores verticais maiores (como o Airbus A321 ou o velhinho Boeing 757) têm maior autoridade de leme para contrariar o vento lateral, mas também oferecem mais "área de vela", o que os torna mais sensíveis a rajadas.
A capacidade de resposta dos motores para um "go-around" (abortar a aterragem) imediata em caso de windshear é crítica. Modelos mais recentes possuem radares meteorológicos e sistemas de previsão de windshear mais reativos que modelos antigos.
Cada avião tem um limite demonstrado de vento cruzado (ex: 33 nós com pista seca). No entanto, no Aeroporto da Madeira, os limites são ainda mais restritos por via regulamentar (IATA/ANAC) devido à turbulência específica do local, que pode fazer com que um vento de 15 nós se transforme numa rajada de 25 nós num décimo de segundo. Os políticos devem perceber que isto não é linear, dentro dos limites podemos não aterrar. A pressão política para "flexibilizar" os limites do aeroporto é um jogo perigoso com a física.
Mesmo que se aumentasse o limite legal, a experiência do passageiro seria degradada. Aproximações no limite da estabilidade causam ansiedade extrema e desconforto físico (enjoo e pânico). Seria um novo paradoxo, fazer as pessoas desistir ou evitar de andar de avião pelas más experiências ao forçar as aterragens.
As regras atuais existem porque a pista da Madeira não perdoa falhas. Aligeirar normas num cenário de ventos mais erráticos devido às alterações climáticas é ignorar que a margem de segurança está a ser "comida" pela meteorologia. Com técnica e clima não se faz política!
Quando os decisores ignoram a gestão de resíduos e a saturação ambiental em prol do lucro imediato, e depois exigem que a aviação "se adapte" a qualquer custo, estão a transferir a responsabilidade da gestão de crise para os pilotos. Os tais ambientalistas não falam para chatear ou são uns cromos. Agora estamos a receber de uma vez os erros de muitos políticos que não ouviram e não tiveram coragem de mudar, de limitar a ganância... COMO NA MADEIRA!
O aumento dos dias de "aeroporto fechado" é um aviso da natureza, mas se a Madeira não ouviu os ensinamentos da Covid para o modelo económico e se fez ainda pior, o que esperar do problema dos ventos. Insistir num modelo de crescimento infinito com uma pegada carbónica pesada, enquanto se pede à aviação para ignorar as leis da física e da segurança, é uma estratégia destinada ao fracasso. A segurança aérea não pode ser um ajuste político, é a última barreira que protege a vida de quem nos visita e de quem vive na ilha.
Temos um secretário do turismo incompetente, teimoso e vaidoso, é preciso plano real de contingência e, só um possível, que ele por capricho não quer atender. A mitigação dos problemas do nosso aeroporto só se conseguem com o desaparecimento deste secretário de estufa (jornais) por outro com mais inteligência e coragem. Um secretário do turismo da realidade e não da bolha informativa e intoxicação da opinião pública.
Parabéns Madeira Opina pela vossa utilidade na Região, senão isto seria a um só toque de caixa. Miserável!
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