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Madeira sem Reis, desde 1910!

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 Madeira não precisa de senhores. Precisa de democracia adulta, escrutínio real e poder com prazo. A autonomia, conquistada depois do 25 de Abril e inscrita na Constituição de 1976, não foi criada para alimentar chefias eternas, nem para transformar cargos públicos em propriedade privada de partido, rede ou clã político. Foi criada para servir o povo.

O problema é simples: quando um governo se habitua a mandar demais, a ouvir de menos e a corrigir quase nada, a autonomia deixa de parecer liberdade e passa a parecer uma fortaleza fechada. É isso que está em causa quando a política regional se prende a uma lógica de permanência, de controlo interno e de circulação limitada de alternativas. Uma democracia sem concorrência viva não é saúde institucional; é anestesia.

Durante décadas, a Madeira viveu sob lideranças longas, personalizadas e pouco permeáveis à renovação. Hoje, a crítica repete-se por outra via: prioridades invertidas, investimentos polémicos e uma distância crescente entre o discurso oficial e a vida real das pessoas. Enquanto a habitação aperta, os serviços públicos acumulam falhas e a pressão social aumenta, o poder insiste em projectos que levantam dúvidas sobre utilidade pública, retorno social e escolha política. Não basta construir muito. É preciso construir o que serve.

Também não chega invocar experiência para justificar tudo. Experiência sem alternância pode degenerar em hábito de mando. E hábito de mando, quando se prolonga sem contraditório efectivo, seca o debate, enfraquece os partidos e reduz a cidadania a mera confirmação periódica de quem já está dentro. Isso não é maturidade democrática. É cansaço institucional.

E quando a linguagem do poder tenta vender permanência como competência, convém perguntar o óbvio: quem ganha com a ausência de oposição forte? Quem beneficia com decisões tomadas sempre pelos mesmos, nos mesmos círculos, para os mesmos interesses? Numa região onde tanta gente sente a vida apertar, governar não pode ser sinónimo de proteger elites, premiar lealdades ou empurrar a factura para os de baixo. O dinheiro público exige critério, e critério exige coragem para dizer não ao que é vistoso, mas inútil.

A Madeira não é um feudo. Não é um trono. Não é uma empresa familiar do poder. É uma região autónoma dentro de uma República, onde ninguém está acima do mandato que recebeu e ninguém deve ficar acima do exame público. Quem governa tem de responder pelo que faz, pelo que adia e pelo que escolhe financiar. O resto é propaganda com verniz institucional.

Em Madeira democrática e livre, o poder serve o povo. Não o contrário.

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