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nossa ilha enfrenta hoje um desafio que vai muito além da economia ou do turismo. Existe um discurso nas ruas, nas casas e até nos locais de trabalho que precisa de ser enfrentado com urgência. Para que a Madeira avance no século XXI, é necessário desmontar as ideias erradas que ainda prendem a nossa sociedade a preconceitos antigos e perigosos. É tempo de olhar de frente para o que dizemos e para as consequências dessas palavras.
O primeiro erro comum é a ideia de que «o Governo da Madeira só dá apoios aos preguiçosos». Este argumento ignora a realidade básica da vida. Ter necessidade de um apoio social não é uma escolha, mas sim uma consequência de sistemas que nem sempre funcionam para todos. Quando alguém afirma que «o meu pai nunca me ajudou» para justificar o desprezo pelos outros, está a esquecer que nem todos têm o mesmo ponto de partida. A falta de dinheiro não é falta de caráter. Chamar «teso» ou «forreta» a quem conta os cêntimos é uma falta de respeito pela dignidade humana que não podemos aceitar.
Outro ponto crítico é o ataque constante aos jovens e ao progresso. Dizer que «a juventude de hoje é preguiçosa» porque prefere «computadores» ao trabalho na fazenda é um erro de análise profundo. O mundo mudou. O domínio da tecnologia é a ferramenta de trabalho do futuro e não um sinal de falta de esforço. Além disso, exigir direitos laborais, como horários fixos e fins de semana, não é «ser esperto para fugir à lei», é simplesmente exigir o cumprimento da lei. Um patrão que diz que «só contrato quem aceita trabalhar de manhã até à noite» está a admitir que não respeita a liberdade dos seus trabalhadores. Isto não é gestão; é uma forma de prisão moderna.
A xenofobia também não tem lugar numa ilha que vive da abertura ao exterior. É contraditório criticar os «estrangeiros que roubam trabalhos» e, ao mesmo tempo, reclamar que os «turistas vêm tesos». A Madeira sempre foi terra de emigrantes; nós sabemos melhor do que ninguém o que custa ser tratado como «gente reles» num país estrangeiro. Tratar mal quem nos visita ou quem aqui procura uma vida melhor é destruir o nosso próprio futuro.
Por fim, a política não pode ser usada como uma arma de medo. Dizer que quem fala mal do governo «merece ser castigado» ou que não se dá trabalho a «gente da oposição» é uma atitude que pertence ao passado. A liberdade de expressão é a base de qualquer sociedade moderna. Ninguém deve ter medo de ficar «zangado» ou de sofrer «vingança» por pensar de forma diferente. O respeito pela opinião do outro não é uma opção, é a regra básica da democracia.
A Madeira precisa de um «reset» ideológico. Precisamos de parar de julgar quem anda de «autocarro» e começar a valorizar as pessoas pelo que elas são. Ser pobre não é um rótulo de vergonha. Ser diferente não é ser um inimigo. O futuro da nossa região depende da nossa capacidade de trocar o ódio pela razão e o preconceito pela solidariedade. Está na hora de sermos modernos, não apenas nos edifícios que construímos, mas na forma como tratamos o nosso próximo.
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