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Portugal na armadilha da convergência.

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ortugal entrou na CEE em 1986 com uma promessa simples, convergir. Prometeram modernização, salários dignos e aproximação ao Norte da Europa. Quarenta anos depois, a realidade é outra: salários baixos, fraca produtividade, tecido empresarial pequeno e uma classe média cada vez mais encaixada entre impostos, preços e estagnação. Houve progresso nominal, sim. Mas o progresso nominal não paga renda, não enche o carrinho, não resolve a factura da luz.

Os números são claros. A remuneração bruta mensal média subiu para 1.877 euros no final de 2025, mas o ganho real continua a ser curto. O salário mínimo atingiu os 870 euros e vai continuar a puxar a estrutura salarial para baixo, comprimindo as diferenças e desvalorizando as qualificações intermédias e superiores. Ao mesmo tempo, a inflação recente comeu uma parte importante do rendimento e travou a acumulação de riqueza. Resultado, trabalha-se mais para sobrar menos.

A comparação com os novos Estados-membros do Leste europeu é humilhante. A Polónia, a Chéquia, a Eslováquia e a Lituânia souberam integrar a indústria, o capital humano e o investimento tecnológico numa lógica de escala. Portugal ficou preso a um modelo periférico, dependente dos serviços, do turismo, da construção e das pequenas empresas com pouca capacidade de investimento. Onde faltou indústria, sobrou retórica. Onde faltou estratégia, abundou propaganda.

A baixa produtividade explica o resto. Sem capital por trabalhador, sem inovação, sem I&D consistente e com licenciamento lento, justiça morosa e custos de contexto pesados, não há milagre salarial possível. Subir ordenados por decreto, sem aumentar valor produzido, seria apenas empurrar a conta para o futuro. E o futuro já está à vista, mais importações, mais pressão externa e menos competitividade.

Na política, o padrão repete-se. O PSD vende a redução fiscal como remédio universal, mas tende a aliviar mais quem já ganha mais. O PS reforça os baixos rendimentos e o Estado social, mas deixa intactas várias estruturas que travam a produtividade e o investimento. Pelo meio, a Madeira continua a ser tratada como um palco de interesses, com discursos sobre o desenvolvimento que tantas vezes escondem a defesa de grupos instalados e de uma economia dependente.

A verdade é dura, Portugal não falhou por falta de fundos. Falhou por falta de coragem reformista. Sem reforma fiscal, sem reforma laboral séria, sem um Estado que acelere e não atrase, a convergência continuará a ser um slogan gasto. O país precisa de salários mais altos, sim. Mas precisa, antes de mais, de produzir mais, organizar melhor e deixar de fingir que o betão, o marketing e as promessas substituem a economia real.

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