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A favela dos ricos, os bairros sociais dos milionários.

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Trânsito bloqueado: as ruas no Funchal não alargam, mas a construção não pára.

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entro de pouco tempo o Funchal será um bloco de cimento visto do mar, contrariando todas as regras de Oscar Niemeyer, com o pré-projeto sido concebido em 1966 e a execução do mesmo por pelo arquiteto Alfredo Viana de Lima, aquando da construção do Casino Park Hotel. Nada se aprendeu para dar a todos vista e deixar a cidade respirar para o mar. Pelo contrário, num lote de terreno constrói-se primeiro o prédio que vai ser tapado por outro e assim sucessivamente. São vendas desleais que só o dinheiro que existe na algibeira tolera.

O Funchal não quer tomar os exemplos errados de massificação do turismo e de construção desmesurada de outros lugares, quer também cometer os mesmos erros como que fosse necessário para um currículo do desenvolvimento e da estupidez. O resultado acaba em lugares desvalorizados e que depois se tornam decadentes. É uma moda que passa, esgotada pelo exagero edificado, a gentrificação, o caos promovido por todos por ganância, mas que depois ninguém quer.

A equação é simples, mas o resultado tem sido caótico, as ruas do Funchal têm exatamente a mesma largura de há décadas, mas o volume de construção e o número de carros continuam a crescer a um ritmo alucinante. As pessoas têm que circular de alguma maneira, umas em cima das outras, com estacionamentos cada vez mais rebuscados e os talhões minúsculos a permitir milagres pela falta de terrenos que já existe.

Viver, trabalhar ou simplesmente circular no Funchal transformou-se num teste diário à paciência. O trânsito bloqueado já não é um exclusivo das "horas de ponta" é a nova realidade de uma cidade que parece sufocar sob o próprio crescimento.

O problema central é físico e geográfico. O Funchal cresceu na encosta de um anfiteatro natural. As artérias principais são estreitas e impossíveis de alargar sem deitar abaixo o património histórico ou investir milhões em expropriações inviáveis.

Ainda assim, assiste-se a um fenómeno contraditório, novos blocos de apartamentos, hotéis e empreendimentos nascem a cada esquina, sítios que deveriam ser zonas verdes para deixar respirar a cidade acabam na construção exagerada, alguns com títulos de patos bravos e um negro que acumula calor. Que paguem o erro com consumo de energia para arrefecer.

Cada novo edifício significa mais moradores, mais serviços e, inevitavelmente, mais centenas de carros a circular nas mesmas vias de sempre. Quase sempre com comércio no rés-do-chão que em vias cheias ainda aguardam pelas manobras de entrada e saída dos carros. Mas também segunda fila, algumas indiana, que fazem veículos andar em contra mão várias dezenas de metros. Caótico.

Mas também temos camiões, betoneiras e cortes de via temporários para saneamento e água, transformando o ato de conduzir numa autêntica corrida de obstáculos. Não podemos querer uma cidade moderna e atrativa se a mobilidade urbana for digna de um século passado. O Funchal está a atingir o seu ponto de rutura asfáltica. Ninguém quer ouvir ou saber, mas vai acontecer. Uma cidade bloqueada e desprezível de quem todos fogem, nascida da gula de construtores e os chulos do alheio (imobiliárias).

Se a construção não pára para pensar, impulsionada pelo dinamismo económico e pelo imobiliário, o planeamento urbano nunca será possível. Não vale a pena continuar a injetar carros num funil. A solução terá de passar, obrigatoriamente, por repensar as alternativas de mobilidade, otimizar os transportes públicos e, acima de tudo, planear o crescimento da cidade com os pés assentes na terra (e as rodas fora do cansaço das filas).

Se o Funchal não pode alargar as suas ruas, terá de aprender a gerir melhor o espaço que tem. Caso contrário, a capital continuará a caminhar a passos largos para um bloqueio permanente.

Paralelamente a cidade aquece com o betão e nenhuma atenção à flora. Lava-se muito dinheiro com a construção sem intenção de viver, mas o mal fica.

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