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A República do Sofá.

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a Madeira, a revolta parece ter sido arquivada no mesmo dossier onde se guardam as promessas eleitorais: numa prateleira alta, empoeirada e convenientemente fora do alcance. Enquanto os salários continuam baixos, os bens essenciais sobem como se tivessem ambições, as casas se transformam em miragens e os combustíveis praticam desporto de elite, há quem responda com a mais refinada das instituições regionais: o sofá. É ali que a indignação repousa, dobrada com cuidado, entre o comando da televisão e a resignação de quem já confundiu prudência com obediência.

Ir para a rua protestar? Que disparate de civilização excessiva. Isso exige pés, voz, cartazes, ideias e, pior ainda, espinha dorsal. E a espinha dorsal, ao que parece, tornou-se um artigo de luxo. É mais cómodo repetir a ladainha do costume, procurar um culpado abstracto, culpar o clima, o calhau, a humidade, o turismo, o preço do ar ou a má disposição do universo, do que admitir a verdade mais simples: há quem tenha normalizado a precariedade como quem normaliza o ruído de fundo.

A comédia é brutal. Fala-se de direitos como quem fala de meteorologia, com a mesma distância emocional de um aviso de chuva. Fala-se de salários como se fossem um detalhe folclórico, e de habitação como se morar fosse um privilégio reservado aos de outra espécie. Depois, quando alguém ousa dizer “basta”, instala-se o pânico doméstico. Não pelo conteúdo da mensagem, mas pela possibilidade de alguém notar. Notar dá trabalho. Exigir dá trabalho. Discordar dá trabalho. E, numa cultura onde o esforço é tratado como uma anomalia e a coragem como um incómodo, a passividade acaba por parecer virtude.

Há, nesta quietude, uma pedagogia do medo: o medo de desagradar, o medo de ser visto, o medo de perder o lugar, o medo de não ser convidado para a mesa onde se decide tudo menos a vida de quem nela come. O resultado é um povo treinado para sussurrar quando devia gritar, para engolir quando devia responder, para assistir quando devia intervir. E assim se fabrica a grande disciplina regional: não a do mérito, mas a da contenção; não a da liberdade, mas da renúncia; não a da dignidade, mas da paciência até à anestesia.

No fundo, o problema não é apenas a precariedade. É a extraordinária capacidade de a suportar com um sorriso cansado, como se a humilhação fosse um traço identitário e a indignação uma excentricidade de forasteiros. Há quem chame a isso sensatez. Outros chamam-lhe medo com bom mobiliário. E talvez seja esse o verdadeiro milagre: uma terra onde o desconforto social é tão grande que até a revolta parece pedir desculpa por existir.

Mas nenhuma ilha se salva quando o silêncio é tratado como virtude e a submissão como bom senso. Um dia, até o sofá se irá cansar de tanta quietude.

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