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Não tardou muito, vejo o lobo marinho de barbatanas a andar e rabo a arrastar para subir para o autocarro rumo ao Pico do Areeiro. O autocarro já estava infestado e o motorista cumpre a regra de não molestar lobos marinhos, não lhe cobrou o bilhete, nem ele estava habilitado. O lobito chamado "Espetada de Turista" ficou radiante porque estavam todos apertadinhos ao fundo, com imensos lugares disponíveis para poder ir num assento de dois. Parece que houve passa palavra. Ainda pensou começar a tratar do assunto lá ao fundo, mas como o senhor condutor foi porreiro não lhe quis conspurcar o carro, é que para além disso, havia mais carreiras durante dia e os turistas já dali não saiam.
Chegado ao Pico do Areeiro, o "Espetada de Turista" confirmou que o sítio parecia uma taça de snacks sob o ponto de vista de um lobo marinho. Olhou para a multidão compacta que se amontoava nos trilhos e pensou que, afinal, a viagem de autocarro tinha valido bem a pena. Ali, entre selfis e casacos impermeáveis, a ementa era farta, variada e, acima de tudo, não dava trabalho nenhum a pescar. Restava saber se o excesso de turismo também fazia mal ao colesterol de um lobo marinho. Que pena não ter o mano para ajudar, ele vinha pelo outro lado e eu desde, encurralávamos este cardume. É fácil de apanhar, o problema é comê-los todos, nem toda a população de lobos. Bem... se contarmos com os parasitas da ilha talvez...
O lobo decidiu ligar ao "Arrastão" professor de caçadas da comunidade: - então há forma de caçar e fazer conservas?
O "Espetada de Turista" ajeitou os bigodes com a barbatana esquerda, avaliando o menu que se estendia pelas cristas do Pico do Areeiro em direção ao Pico Ruivo. Era uma autêntica passadeira rolante de self-service. Havia "snacks" para todos os gostos, uns mais rijos de sapatilhas de corrida, outros mais tenros, vestidos de calções e t-shirt a tremer com o vento da serra, e até alguns bem condimentados com protetor solar fator 50.
Já sonhando ser predador aéreo, o "Espetada de Turista" percebeu as vantagens de ter asas em vez de barbatanas, mas ele não se afoga, as aves sim. Instalou-se confortavelmente num miradouro, ocupando o espaço de quatro pessoas, porque outra vez ninguém o incomodou com o bilhete e porque é fauna da terra há muitos mais anos do que madeirenses, mas mal se notava, dada a habitual densidade populacional do local. Um grupo de alemães, maravilhados com a "biodiversidade" da Madeira, aproximou-se a menos de trinta centímetros com os telemóveis em riste. Ainda não sabiam do episódio.
— Oh, look! A seal in the mountains! So organic! — exclamou uma turista, tentando fazer uma selfie de bochecha colgada ao focinho do animal.
O "Espetada de Turista" bocejou, exibindo uma dentadura que faria inveja a um tubarão-martelo. Lembrou-se do meu conselho sobre "consultar o médico para saber se lhe fazia bem à saúde". Olhou bem para a senhora, pensou no excesso de gorduras e declinou, era Fast-Food, aquela peça precisava de ir ao laboratório para analisar. Será que esta loucura é transmissível como doença à comunidade de lobos marinhos? Outra grande dúvida. Deu uma leve trincadela de aviso na alça da mochila da senhora, só para testar a textura da "embalagem". O pânico foi instantâneo. Foi um ver-se-te-avias de bastões de caminhada pelo ar, gritos em quatro línguas diferentes e uma debandada geral que abriu um corredor direto até ao radar meteorológico.
O Lobito sorriu, o mar da Madeira podia estar cheio deles, mas ali na serra, além de estarem todos concentrados, vinham mesmo ter à boca. Estava decidido, vou comprar o passe social para o Pico do Areeiro, se não der tanta maçada como o SSM. Tinha sido o melhor investimento da sua vida de mamífero.
O Espetada de Turista está louco para provar um tal de "Oh Jesus" porque a cada vez que vê um turista aflito ele diz "Oh Jesus", deve ser um conselho para a alternativa grumet do cardume.
Nisto toca o telemóvel, era o SIS da lobada, com a mensagem: - o tal "oh Jesus" quer te empregar como guarda florestal. O Espetada de Turista respondeu: - Não quero. Ainda acabo líder do Chega, não consigo comer toda a gente!
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