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Madeira, isto é um despertador (e está alto).

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Milagre. Absoluto milagre. 

N

o meio da previsibilidade do panorama regional, surge um fenómeno inesperado, alguém decidiu criar — e, pior ainda, mostrar. MAdruka. Nome que soa a projeto, personagem ou entidade mística invocada após três ponchas e uma crise existencial criativa. E, surpreendentemente, resulta. A Madeira dá sinais de vida. Não daqueles tímidos, de quem pede licença — mas daquele tipo que aparece com som ligado e sem pedir autorização. Chama-se MAdruka. Nome que já promete qualquer coisa de génio criativo.

“Madeira Tão Tua” não parece ser só uma página de YouTube; é quase um pequeno abalo sísmico cultural. Porque há muito que a ilha se habituou a exportar talento ou a ignorá-lo em silêncio respeitoso. Desta vez, alguém decidiu fazer barulho.

O Conde das Rosas entra aqui que nem uma luva como titulo de uma musica. Há uma espécie de teatralidade assumida, quase provocadora, como quem diz: “sim, isto é mesmo para ser visto e ouvido”. E é.

O mais curioso é que, no meio de tanto conteúdo descartável, aparece algo que não pede desculpa por existir. Não tenta agradar a todos, não se esconde atrás de fórmulas seguras. E isso, por si só, já é meio caminho andado para incomodar. O que é ótimo.

Claro que agora vem a parte mais difícil, lidar com o entusiasmo inicial sem que ele seja imediatamente esmagado pelo clássico “isso aqui nunca dá em nada”. Mas, por uma vez, talvez valha a pena contrariar a tradição e fazer algo radical, ouvir, partilhar e admitir que sim, pode estar aqui qualquer coisa a mexer.

Não é um projecto morno. E isso, na Madeira, é quase um acto revolucionário. Durante anos, aperfeiçoou-se a arte do “não incomodar muito”, do “é giro”, do aplauso educado que não compromete. MAdruka faz exatamente o contrário — existe em voz alta, com aquele à-vontade irritante de quem não está particularmente preocupado em caber no molde.

Claro que isto levanta um problema sério, e se pega? E se mais gente começa a ter ideias, a criar, a expor-se sem pedir licença? Ainda acabamos com uma cena cultural viva, o que, convenhamos, seria profundamente inconveniente para o conforto geral.

Mas pronto, por agora fica o aviso, há movimento. Pequeno, desalinhado, potencialmente caótico, como todas as coisas interessantes.

No fundo, talvez a Madeira não esteja adormecida. Talvez estivesse só à espera de alguém que carregasse no play.

Parabéns ao autor. E sim, vamos dar boost. Nem que seja só para ver quem fica desconfortável.

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