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Fala-se muito de coragem, de orgulho e de “raça”, mas a realidade é outra. Há coragem para ameaçar o vizinho, espalhar boatos, cuspir inveja e destruir quem tenta crescer. Mas falta coragem para exigir contas ao poder político, aos grandes empresários e aos donos do sistema. Aí aparecem o silêncio, o medo e a obediência. Muitos preferem baixar a cabeça, lamber botas e defender quem os mantém dependentes.
Na Madeira, um pobre que queira abrir negócio, investir ou melhorar de vida transforma-se rapidamente em alvo. Primeiro vem a curiosidade. Depois a imitação. E, quando não conseguem fazer igual, surge a inveja e a tentativa de destruir. Critica-se o pequeno comerciante, o trabalhador independente ou quem tenta sair da miséria, mas idolatra-se quem já nasceu rico ou vive protegido pelo poder.
Criou-se uma mentalidade de servidão onde muitos aceitam viver mal, ganhar pouco e depender de favores, desde que os ricos continuem ricos e o Governo continue forte. Parece existir a ideia de que, se os poderosos perderem privilégios, o povo também perde. Como se a pobreza fosse um património regional a defender.
O problema não é apenas económico. É mental. É cultural. Há madeirenses que defendem os próprios exploradores com mais força do que defendem os seus direitos. Têm medo de protestar, medo de exigir, medo de pensar diferente. Preferem atacar outros pobres do que enfrentar quem realmente manda.
Durante anos, vendeu-se a imagem de uma terra de gente humilde, trabalhadora e unida. Mas basta alguém tentar subir um degrau para aparecerem logo os fiscais da inveja, os especialistas do boato e os guardas voluntários da submissão. O resultado é uma sociedade presa ao medo, ao compadrio e à pequenez.
Enquanto isso, os ricos continuam confortáveis, os poderosos continuam protegidos e o povo continua dividido entre si. Uma divisão conveniente para quem manda. Porque um povo ocupado a destruir-se nunca terá força para exigir respeito, justiça ou mudança.
E talvez essa seja a maior tragédia da Madeira: não a falta de riqueza, mas a normalização da submissão.
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