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O Peso do Mil-Réis...

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m Portugal, o real — cujo plural era réis — não tinha um símbolo próprio, como acontece hoje com o euro (€). Na escrita contabilística da época, usava-se o cifrão ($) para separar os milhares, e os valores apareciam muitas vezes abreviados.

Na prática, escrevia-se assim:

  • 1$000 correspondia a mil réis;
  • • $500 significava quinhentos réis.

O real circulou em Portugal entre cerca de 1430 e 1911, altura em que foi substituído pelo escudo, à taxa de 1.000 réis por 1 escudo. Durante séculos, o mil-réis foi uma das referências centrais da economia portuguesa e representava muito mais do que um simples número escrito em moedas ou livros de contas.

Entre 1900 e 1908, 1.000 réis tinham um valor considerável no quotidiano. Para muitos trabalhadores, era o equivalente a dois ou três dias de salário. Um pedreiro das obras públicas, por exemplo, ganhava em média cerca de 438 réis por dia em finais do século XIX.

Com um mil-réis, era possível garantir várias necessidades básicas. Um jornal custava entre 10 e 20 réis, o que permitia comprar imprensa diariamente durante várias semanas. Um maço de cigarros custava cerca de 50 ou 60 réis. As viagens nos primeiros elétricos ou nos “americanos” de Lisboa também custavam apenas algumas dezenas de réis.

Na alimentação, os 1.000 réis permitiam comprar mantimentos para vários dias ou fazer refeições nas Cozinhas Económicas de Lisboa, criadas para apoiar as classes populares com comida barata. Mesmo assim, a habitação já pesava fortemente no orçamento das famílias.

Em Lisboa, no início do século XX, mil réis podiam pagar apenas uma semana de aluguer num quarto simples ou numa habitação modesta dos bairros operários. As rendas mensais mais pobres rondavam os 3.000 a 5.000 réis. Já nas zonas mais nobres da capital, como a Avenida da Liberdade, os preços eram incomparavelmente superiores e podiam ultrapassar os 200 mil-réis por ano.

O contraste é curioso e quase irónico. Hoje, um T1 em Lisboa pode custar mais de mil euros por mês. Em 1900, os “mil” eram em réis, mas também mal chegavam para garantir habitação durante muito tempo. O problema da habitação em Portugal — e na Região Autónoma da Madeira — não nasceu ontem. Mudaram as moedas, mudaram os governos, mudou a linguagem económica. Mas a dificuldade de viver com dignidade continua a perseguir quem trabalha.

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