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Os donos da «nossa» Sé

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 nossa catedral ou Sé do Funchal com mais de 500 anos não envelheceu. Não está desatualizada como algumas mentes consideram, reparem na expressão «a Sé não é um museu». Porque não é um museu, dizem, tem que ser adaptável à crença e devoção pessoal de alguém. A Sé não está desatualizada, é um edifício que envelheceu para ser respeitado por esta geração e pelas que vierem a seguir.

Algumas mentes atuais consideram-se iluminadas e «chamadas» a serem o farol dos restantes que eles têm como idiotas, que devem comer e calar para a sua salvação.

Depois de ler as justificações de apelo à emotividade para induzir ao enternecimento, sobre os arranjos de portas, sem conhecimento e sem ouvir ninguém, nem muito menos colocar a hipótese de alternativas que não retirassem nada do antigo guarda-vento, custa entender a lógica dos «ajustes», por mais ligeiros que sejam para não tropeçarem as velhinhas e, acrescento, as virgens não caírem com agravos severos na sua integridade virginal. 

Corta-se as madeiras que atrapalham para permitir a livre circulação. Mete-se imagens modernas ao gosto da devoção pessoal do bispo ou de um cónego. O povo gosta e mete velas que se farta para conseguir o cumprimento de promessas. Toca andar, porque poucos reparam e os que repararem logo se lhes mete umas justificações chocantes. Pelo meio há sempre gente que admira e defende tais infantilidades.

Tudo apresentado com o melhor dos argumentos: funcionalidade e modernidade. E haverá coisa mais pungente que é pensar na integridade física das velhinhas que tropeçam aos milhares por essas igrejas… Como se os mestres que ergueram aquelas paredes não soubessem o que faziam, e nós, os espertos do séc. XXI, é que sabemos da poda.

O cónego da Sé e o bispo Brás são neste momento o maior problema da Sé e do património religioso na nossa terra, além do governo, que tem sido o maior destruidor de património edificado, legitimando as investidas dos particulares contra os bens do passado que nos foram transmitidos.

Por isso o problema é simples, funcionalidade dura uma gestão. O edifício de pedra, as magníficas estruturas em talha e as pinturas duram séculos. O que se arranca não volta. E o arrancado é um crime patrimonial, com responsáveis que nós sabemos bem quem são relativamente à Sé do Funchal neste momento.

A Sé não tem donos, é de um povo inteiro. Pertence ao Estado Nacional e por sua vez é da humanidade inteira. Quem não gosta parta para outra, faça do seu património pessoal o que entender. A Sé não é só de quem lá está e entra. É de crentes e não crentes, devotos e menos devotos. 

Alterar as caraterísticas ancestrais da Sé pode suscitar a perda de categoria e o Estado demitir-se da sua responsabilidade. Depois veremos o bico de obra que será conservar a gigantesca volumetria da Sé. Depois não chorem e não gritem por dinheiro convertido em esmolas que serão cada vez mais escassas. 

A catedral deve sim, modernizar-se, não é pecado que tal aconteça, desde que respeite tudo aquilo que não ponha em causa o que veio dos mestres do passado. A modernização sem critério que na Sé tem sido feita tem trocado a memória de uma cidade por um recibo, que faz sorrir alguém. 

Não esquecer, há lugares onde o respeito não é conservadorismo. É responsabilidade.

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