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As grandes empresas hoteleiras, com os seus pacotes “all inclusive”, querem o lucro todo para si. Querem o dinheiro fechado dentro das suas paredes, sem passar pelas mãos dos pequenos empresários que também dependem do turismo. E depois admiram-se de a população olhar para este modelo com desconfiança. Não admira. Onde há exploração, há revolta. Onde há baixos salários, horários abusivos e desrespeito pelas leis laborais, há pessoas a recusar ser tratadas como peças descartáveis. Por isso é cada vez mais visível a presença de mão de obra estrangeira e a fuga de muitos madeirenses destes empregos. Não por preguiça. Por dignidade.
Chamar “turismo rasca” a quem visita a Madeira é uma tentativa barata de desviar atenções. O problema não é o turista que vem de férias ver a paisagem e conhecer a ilha. O problema é o modelo de exploração, a ganância, o abuso e a hipocrisia de quem aponta o dedo ao visitante para esconder as próprias falhas. Essa gente merece ser chamada pelo nome que lhe cabe: racista, xenófoba e intelectualmente desonesta.
É verdade que há excesso de turistas em alguns pontos da Madeira. Mas isso não faz do turista o culpado. Faz, isso sim, da gestão um caso de incompetência repetida. Se os autocarros chegam todos à mesma hora aos mesmos lugares, a confusão é previsível. Basta organizar melhor os horários e os dias. Se faltam estacionamentos, então criem-se parques pagos e seguros, para evitar abusos e desordem. O caos não cai do céu; é muitas vezes produzido por má organização.
Quanto à conta da luz e da água, a culpa não está no turista. Está nas empresas que cobram, nos serviços que gerem e na forma como os custos são empurrados para cima. Quanto às rendas e ao preço das casas, o problema chama-se especulação imobiliária, oferta insuficiente e mercado descontrolado. E quanto ao estado de certas infra-estruturas turísticas, a responsabilidade é do Governo Regional da Madeira, que nunca falta quando há dinheiro para distribuir pelos amigos certos, mas falha sempre quando é preciso cuidar do que é básico.
E nos percursos turísticos? Muitas vezes os acidentes são filhos diretos da negligência: falta de manutenção, falta de prevenção, ausência de varandas, pisos maus, escadas perigosas e sinalética fraca ou inexistente. Depois, quando tudo corre mal, tentam culpar o turismo, como se a irresponsabilidade administrativa não tivesse nome.
A verdade é simples e incómoda: a culpa não é do turismo, nem do turista. A culpa é de quem explora, de quem desgoverna e de quem prefere insultar a realidade em vez de a resolver
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