Este texto é a minha defesa em resposta ao texto intitulado: "Resposta ao texto "Turismo rasca, lucro fino"".
H
á um erro básico neste argumento, mistura tudo para parecer forte. Mistura turistas com modelo económico, ruído com prova, e indignação com análise. Depois chama “defesa da terra” ao que, na prática, é só uma forma preguiçosa de culpar quem vem, em vez de discutir quem decide, quem lucra e quem regula.
Aceitemos, por um momento, a crítica central, turismo em excesso pode apertar casas, estradas, água, salários e serviços. Sim. Mas daqui não segue que o turista seja o problema principal, nem que a resposta seja pintar o visitante como invasor moral. O problema não é a presença de pessoas. O problema é a ausência de regras, de planeamento e de distribuição justa do valor gerado. Quando uma ilha vive sob pressão, a pergunta séria não é “como insultamos o visitante?”, mas “quem controla o crescimento e para onde vai o dinheiro?”.
O texto confunde uma coisa com outra, turismo massificado não é, por definição, turismo barato. E turismo barato não é, por definição, turismo destrutivo. Há visitantes de baixo custo que gastam em restauração, transportes, comércio local e serviços; há turismo caro que consome muito espaço e devolve pouco ao território. O que define o dano não é a classe da mochila. É o desenho do sistema. Quando se critica “turismo rasca” como se o preço de quem viaja fosse uma culpa, troca-se um debate económico por um julgamento de classe.
Também há aqui uma contradição evidente. O argumento acusa o texto de branquear a exploração, mas faz o mesmo ao contrário: branquear o bloqueio mental que transforma qualquer crítica ao ressentimento local em “ataque ao povo”. Não é verdade. Criticar uma narrativa não é atacar uma população. E defender visitantes não é defender exploração. São planos diferentes. Um debate honesto separa as pessoas dos mecanismos.
Mais: usar a precariedade salarial como prova de que o turista deve ser culpado é um desvio. Se os salários são curtos e o custo de vida sobe, isso exige política salarial, habitação acessível, controlo do solo, limites claros e estratégia económica séria. Não exige um bode expiatório com bilhete de avião. Quando se aponta o dedo ao visitante, o poder político respira. E é precisamente aí que o argumento falha: dá ao sistema uma saída fácil e dá ao público uma raiva inútil.
A tabela de pressão turística pode ser útil para chamar atenção, mas rácio não é automaticamente condenação. Um número por si só não prova injustiça; prova pressão. E pressão não se resolve com histeria. Resolve-se com gestão. Se a Madeira recebe muito, então tem de regular melhor, diversificar melhor e devolver mais valor à população. O que não resolve nada é trocar planeamento por agressividade.
No fim, a questão é simples, ou se debate turismo com inteligência, ou se fabrica um inimigo conveniente. Culpar o turista é fácil. Difícil é mexer na estrutura que concentra lucros, empurra custos para a população e depois pede aplauso por isso. Esse é o verdadeiro truque. E esse truque já cansou.
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