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Há uma diferença básica que vale a pena não fingir que não existe: o hotel “all inclusive” fecha o dinheiro dentro de quatro paredes. O turista entra, come, bebe, dorme e sai quase sempre sem tocar no comércio da rua. Isso não é uma economia viva; é uma economia em circuito fechado, com o comércio local a ver os lucros pela janela. Já o alojamento local, as estalagens e as pequenas unidades espalham consumo por cafés, pastelarias, restaurantes, bares, táxis, autocarros, supermercados e pequenos serviços. Isso chama-se economia circular. Numa, o dinheiro circula. Na outra, estagna e evapora.
É aqui que a conversa se torna interessante. Os grandes grupos gostam pouco de partilha. Preferem vender a ideia de que tudo o que não lhes pertence é “rasca”, “desorganizado” ou “excessivo”. É uma bela manobra: quando o pequeno comércio ganha, o discurso muda logo para o perigo do turismo barato. Quando o lucro fica concentrado, já se chama “qualidade”. Quando o dinheiro chega aos bairros, já se chama “ruído”. Quando o cliente gasta fora do hotel, já se chama “ameaça”. A linguagem faz o trabalho sujo para o capital.
Mas a realidade é teimosa. Quem anda pela ilha vê hotéis cheios em zonas muito concretas e vê, ao mesmo tempo, muitos espaços com vida normal, gente a trabalhar, ruas sem multidões e comércio a lutar por cada cliente. Portanto, dizer que a Madeira inteira está afogada em turismo é exagero. Dizer que não há pressão em sítios específicos também é mentira. O que existe é uma distribuição desigual, mal pensada e demasiado confortável para quem lucra mais. O turista não é o inimigo. O desenho do mercado é que está viciado.
O discurso do “turismo rasca” serve, muitas vezes, para esconder duas coisas. Primeiro, a frustração dos grandes interesses por não conseguirem controlar todo o dinheiro que entra. Segundo, a tentativa de empurrar para os pequenos e para os visitantes de menor gasto a culpa por um sistema que foi construído acima das suas cabeças. Isso não é análise. É propaganda com verniz moral.
Se a Madeira quer defender o comércio local, não precisa de guerras contra quem cá vem gastar. Precisa de regras que obriguem a repartir melhor o valor, de limites onde há excesso, de planeamento onde há caos e de menos reverência perante as grandes máquinas hoteleiras. O problema não é haver turistas. O problema é haver turismo sem justiça económica.
E isso, sim, é o que falta discutir.
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