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O meu discurso no Parlamento.

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Nunca um cidadão pode fazer um discurso no Parlamento Regional, porque é representado. Por isso vou usar o Madeira Opina para publicar um discurso aberto.

Senhor Presidente da Assembleia, Senhores Deputados, Povo da Madeira e do Porto Santo,

H

oje, neste Primeiro de Julho, celebramos mais um Dia da Região Autónoma da Madeira e das Comunidades Madeirenses. É um dia de orgulho, sem dúvida, mas o verdadeiro orgulho não se alimenta de folclore político ou de discursos de circunstância, alimenta-se de coragem para olhar de frente a realidade da nossa terra. E a realidade, despojada da propaganda oficial, exige de nós uma profunda e séria autocrítica. A Autonomia que hoje festejamos foi conquistada para servir os madeirenses, mas o que vemos hoje, demasiadas vezes, é uma Autonomia que serve apenas para blindar interesses instalados e perpetuar as mesmas assimetrias de sempre. Estamos cheios de mentiras, narrativas, propaganda e entretenimento, andamos no que se chama de Pão e Circo. Atenção que pão é mesmo figurado, ao preço que estão os supermercados em concertação e abusos, perante a cegueira da ARAE.

Não podemos continuar a assobiar para o lado enquanto o custo de vida asfixia as nossas famílias. Assistimos a um mercado de habitação completamente inflacionado, onde os jovens da nossa terra são empurrados para fora das suas próprias vilas e cidades porque os salários locais são incompatíveis com a especulação imobiliária que foi promovida e aplaudida. Que Autonomia é esta que constrói hotéis de luxo mas falha em garantir um teto acessível à classe trabalhadora? Sim, trabalhadora, porque classe média não existe.

Que desenvolvimento é este que se gaba do turismo recorde, mas que tem não distribui a riqueza e que acaba apresentada como PIB de meia dúzia. Que discurso é este de 60 meses a crescer, ofensivo para os madeirenses que não conseguem viver na Madeira e que são a grande maioria. Estamos a inviabilizar a nossa sociedade e a trocá-la por ricos estrangeiros.

Senhores Deputados, a descentralização não pode ser um mero slogan. Continuamos a ver uma Madeira a duas velocidades, a do Funchal e a dos concelhos periféricos, a do betão e a dos serviços públicos essenciais que continuam a faltar no Porto Santo e nas zonas altas. O poder político regional tendeu, ao longo de décadas, a fechar-se sobre si mesmo, confundindo o interesse da Região com o interesse do partido ou do governante de turno. Critica-se legitimamente o centralismo de Lisboa, e devemos continuar a combatê-lo sempre que este nos asfixie, mas praticamos, vezes demais, um centralismo regional igualmente nocivo e opressor dentro das nossas próprias fronteiras. A ostracização, a perseguição, o assédio existem e têm autor, o poder que tudo quer controlar. Temos um governo que não é para todos os madeirenses.

Senhores Deputados, a situação insustentável em que se encontra a nossa saúde pública é facto. É de um descaramento sem limites ouvir o Presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, vir a público com uma postura despesista e falar cinicamente em cortar nos exames médicos dos madeirenses sob a capa da "contenção", quando a realidade demográfica desmente a sua própria governação. Como podemos aceitar que se queira racionar o acesso aos cuidados de diagnóstico da nossa população mais vulnerável, quando este mesmo executivo promove ativamente e de braços abertos a fixação de novos residentes idosos, a vinda massiva de imigrantes e a pressão constante de milhões de turistas? Exigir que a estrutura de saúde responda a um aumento brutal da procura externa e, ao mesmo tempo, querer penalizar e cortar nos exames de quem cá trabalhou toda a vida é uma inversão completa de prioridades e uma ofensa à dignidade dos madeirenses. Enquanto isso, o senhor Presidente viaja, paga jantares de meio milhão, infraestrutura campos de golfe, dá apoio para rali, enfim.

Celebrar o Primeiro de Julho com maturidade democrática exige que esta Casa assuma o seu papel fiscalizador e legislativo com total independência e menos vassalagem. Exige que a transparência deixe de ser uma palavra vã nas comissões de inquérito e passe a ser a regra da contratação pública e da gestão dos dinheiros dos contribuintes. A Autonomia não é uma coutada privada, é um projeto vivo, coletivo e em constante evolução. Para honrarmos o sangue e o suor daqueles que a fundaram, temos de ter a audácia de a reformar, de combater a pobreza estrutural que ainda nos envergonha e de devolver esta Região àqueles a quem ela verdadeiramente pertence: os madeirenses.

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