A Madeira está um "açantiguinha" que nem se finge
N a Madeira anda qualquer coisa muito estranha. O povo ainda não sabe ao certo o quê, mas sente aquele "mexerinho" irritado no ar, aquele nervoso miudinho que só aparece quando a política começa a dar voltas maiores do que as estradas da Serra d’Água. As laranjas podres andam num nervosismo que até arrepia. Correm, prometem, telefonam, distribuem frangos como se fosse comida para todos e fingem que isto tudo é normal. Normal não é. Nem pouco mais ou menos.
A ilha está a levar com frangos para todo o lado, passeios de idosos, atenções repentinas, simpatias de última hora e favores que ninguém pediu. Quando aparece tanta fartura fora de época, o madeirense percebe logo. Isto não é bondade. Isto é medo político. E medo político costuma anunciar tempestade. O povo olha, observa e desconfia. Na Madeira, quando há fartura do nada, há campanha fantasma.
E no meio desta azáfama começam a aparecer os terrenos comprados à pressa. Terrenos bons, bem localizados, alguns já quase preparados para grandes projectos. Depois, por milagre ou despacho conveniente, encaixam direitinho em futuros campos de golfe, urbanizações ou grandes obras que ninguém pediu, mas que dão lucro como se fossem mel de abelha. Há negócios que se fossem pensados com calma não dariam metade do lucro. Há pressas que valem ouro.
O tema dos campos de golfe volta sempre à conversa. Cai, levanta, tropeça nos próprios buracos. Buracos no projecto, buracos no discurso, buracos no orçamento e buracos na paciência de quem ainda acredita nestas histórias. E enquanto o campo de golfe não avança, há quem avance bem mais depressa a comprar terrenos com visão estratégica. Tudo muito estratégico mesmo, tão estratégico que até um cego via a oportunidade a brilhar.
Dizem que não há eleições, mas a Madeira nunca esteve tão mexida. A azáfama política corre mais depressa que a Volta à Madeira. Há telefonemas, encontros às escondidas, decisões apressadas e um silêncio muito estranho quando se fala de votos. Ninguém diz nada, mas a ilha sente. A ansiedade é tanta que até as paredes das repartições devem estar a transpirar. Depois de março a coisa vira, diz-se baixinho, mas ninguém confirma. A ilha tem faro para estas coisas e percebe quando a campanha fantasma já começou. Só falta mesmo anunciar o dia.
A verdade é simples. Tudo mexe, tudo corre, tudo tenta agarrar o que ainda sobra. Há frangos, passeios, favores, terrenos à pressa, campos de golfe e lucros fáceis demais. As laranjas podres mostram os nervos e ninguém se engana. A Madeira está num "açantiguinha" daqueles que só aparecem quando o poder começa a tremer. Quem anda distraído ainda pensa que é coincidência. Quem anda atento percebe que a campanha fantasma já está a todo o vapor. Falta só o sinal oficial. O resto está à vista de toda a gente.
