A lguém viu Montenegro se demitir com as suspeitas sobre si? Não, usou a tática do PSD Madeira de permanecer para mexer os cordelinhos até resolver, porque depois do episódio dos "3 do passaporte" cada vez mais a opinião pública fica com essa impressão.
Sem dúvida que dualidade assenta sobretudo num contraste moral e retórico, mais do que jurídico, porque dois anos depois não decidiram o caso de António Costa para comparar com o de Luís Montenegro, mas este já leva a vantagem do tempo, em 9 meses resolveu quando Costa vai em 2 anos. Há:
- oposição de estilos/valores entre as duas figuras,
- contraste moral vs. pragmático,
- é mortal como Miguel de Sousa Tavares constrói o argumento com ironia, ambiguidade, equilíbrio/desequilíbrio.
Não tenhamos dúvidas que Costa surge como a figura da responsabilidade extrema, demite-se “por bem menos”, sem acusação formal, aceita um longo limbo político e paga um custo pessoal elevado em nome de um princípio, o de que a simples suspeita fragiliza o cargo. Essa postura é apresentada quase como um sacrifício institucional. Mas, e aproveitou-se da situação para um cargo maior na Europa? Aproveitou-se do erro da Justiça, esta fica com a culpa e apesar de molestado ainda sai a ganhar... e o pais, em meu entender, a perder?
Do outro lado está Montenegro, enquadrado como a figura da normalização da suspeita, o que se faz na Madeira! Resolve rapidamente o seu problema político, não se coloca em espera, e ainda manifesta indignação, apesar de ter beneficiado diretamente de uma demissão causada por um processo de natureza semelhante. A indignação aparece, assim, como assimétrica, não nasce da defesa de um padrão ético elevado, mas da perceção de injustiça pessoal. Só ele é o coitadinho, por fala...
A Justiça parece que não tem noção da comparação de casos, vai de um a um de forma subjectiva e depois as decisões colidem, exigência máxima para uns, tolerância prática para outros, ética da responsabilidade versus ética da conveniência e, sobretudo, a ideia de que o sistema político não aplica o mesmo critério a quem sai e a quem entra.
Não lembrando Costa, o que era justo do primeiro-ministro beneficiado, o argumento acaba sendo eficaz porque não acusa diretamente, sugere e deixa o desconforto no ar no seu caso pessoal.
Porquê que o padrão foi válido para Montenegro não é válido para Costa, equipas e processos diferentes, cada um tem o seu calvário, mas e a comparação entre os dois?
A Justiça está-se a borrar com a política aos olhos dos cidadãos cada vez mais descrentes!
A pergunta final, e este padrão do PSD, regional e nacional, é para se normalizar? Então é que Política e Justiça ficam desacreditadas, isto vai dar um fel que acabará em manifestações contra os "pequenos" para sarar feridas, forte com os fracos. Só nos falta um outro Presidente da laia desta gente! E fica o cenário perfeito.
