H á dias em que a política parece um teatro de revista, mas sem música e com demasiados gritos. André Ventura surge muitas vezes como o ator principal desse palco nervoso, num estado de agitação tão grande que já mistura realidade com ficção, como quem mistura sal com açúcar e depois jura que fez um bolo. Culpar António Costa por “querer imigrantes do Indostão” não é análise política: é imaginação criativa ao nível de uma novela mal escrita.
O truque é simples e antigo. Primeiro cria-se medo. Depois repete-se o medo. Por fim, vende-se o medo como verdade absoluta. Este método dispensa factos, dados ou lógica. Basta falar alto, apontar o dedo e dizer que “a caravana passa”. Passa, sim, mas ninguém explica para onde vai, nem quem paga a gasolina. É política em modo automático, sempre a repetir o mesmo refrão, como um disco riscado.
Ventura vive deste barulho. Vive de frases curtas, ideias longínquas e certezas sem prova. Quando alguém pergunta por factos, responde com slogans. Quando lhe pedem lógica, oferece emoção. É uma política de palco, feita para aplauso rápido, não para resolver problemas reais. O povo, ao contrário do que se pensa, não é parvo. Pode estar cansado, mas percebe quando lhe estão a vender medo em vez de soluções.
Dizer que é “sério e honesto” exige mais do que fé. Exige provas. Sem critérios, não há debate, só crença cega. E política baseada em crença é sempre perigosa. É como conduzir de olhos fechados e dizer que é coragem. Marketing há muito. Conteúdo ficou esquecido no balcão da poncha, ao lado das promessas antigas.
Quando alguém diz que “Salazar faz falta”, convém lembrar que esse tempo tinha censura, silêncio e medo. Chamavam ordem ao que era repressão. Defender isso em nome da liberdade é uma ginástica mental digna de medalha. Em vez de gritar divisão, talvez fosse melhor falar de integração, justiça e crescimento. Viver sem medo não é vender o país; é querer viver em paz.
Depois há o discurso do “salvador”. Fala em limpar tudo, mas olha muito para os salários altos. Se um lugar falha, aparece logo outro, melhor pago. É um sacrifício curioso, feito com calculadora na mão. Enquanto as pessoas lutam com rendas e inflação, o espetáculo continua, com luzes fortes e contas fracas.
Quando faltam argumentos, surge a conversa da “lavagem cerebral”. É a última defesa de quem não prova nada. O país tem problemas sérios, mas perde-se tempo com fantasmas. Chamar “traidores” a quem defende democracia é inverter o mundo. Traidor é quem usa o medo para subir no palco.
A democracia não pode viver refém do ruído. Quando a política troca factos por gritos, não serve o povo, explora-o. Exigir razão não é elitismo. É dever cívico. Democracia faz-se com factos, não com medo. Política não é circo. É responsabilidade. Razão contra o medo. Sempre!
