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Os vereadores do Chega dizem não a um tacho

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oram os primeiros. Dois vereadores do Chega que, quando tiveram à frente um tacho bem embrulhado em papel de “necessidade administrativa”, disseram simplesmente não. Não porque não pudessem. Não porque não soubessem. Mas porque não quiseram. E isso, na política portuguesa, é raridade que merece ser dita sem rodeios.

Na Câmara Municipal do Funchal, onde tantos se habituaram a confundir serviço público com conforto pessoal, estes dois vereadores romperam com a tradição do ajeitamento. Recusaram a assistente imposta por Castro, um lugar criado sem urgência, sem justificação técnica e sem benefício claro para os munícipes. Um cargo que cheira mais a recompensa política do que a necessidade real. Um tacho, em bom português.

Ontem, ao dizerem não, deram uma lição que muitos fingem não ver. Mostraram que não vieram para a política para engordar estruturas, distribuir favores ou criar empregos artificiais. Vieram para fiscalizar, para contrariar vícios antigos e para provar que o discurso contra o sistema pode, afinal, ser prática concreta.

É por isso que estes dois vereadores são, sem exagero, os melhores alunos que o Chega já teve em cargos autárquicos. Não porque gritam mais alto. Não porque aparecem mais nas fotografias. Mas porque fazem aquilo que tantos prometem e quase ninguém cumpre: recusam quando todos aceitam.

São também, por isso mesmo, os mais fiéis discípulos de André Ventura. Não por palavras repetidas em comícios, mas por atos que incomodam. Atos que desagradam a quem vive da política como profissão vitalícia. Atos que expõem a fragilidade moral de um sistema habituado à complacência.

Num país cansado de tachos discretos e silêncios convenientes, estes dois vereadores escreveram uma página simples e clara: não se governa melhor criando lugares inúteis. Governa-se melhor dizendo não quando é preciso.

E isso, goste-se ou não do Chega, já entrou para a história.

Convém sublinhar, esta recusa não foi um gesto simbólico nem uma encenação para redes sociais. Foi uma decisão tomada onde dói, no momento em que se perde influência, conforto e alianças fáceis. Foi um corte consciente com a lógica do “deixa andar”, tão instalada no poder local que já nem causa escândalo. Aqui causou. E ainda bem.

Quem acusa estes vereadores de radicalismo esquece que o verdadeiro extremismo está em normalizar o desperdício, em aceitar estruturas inchadas e em tratar o erário público como moeda de troca política. Radical é dizer basta. Radical é recusar. Radical é lembrar que cada euro gasto sem justificação é um euro roubado à confiança dos cidadãos.

A política local precisa desesperadamente deste tipo de gestos. Precisa de eleitos que não tenham medo de ficar isolados, de ser atacados ou caricaturados. Precisa de quem perceba que governar também é abdicar. E que a ética não se negocia.

No Funchal, dois vereadores fizeram exatamente isso. Sem teatro. Sem medo. Sem tacho. Fica o registo. A memória agradece

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