A derrota eleitoral do PPD e do candidato presidencial Marques Mendes na Madeira não caiu do céu. Teve autores, rostos e escolhas políticas muito concretas. Teve também silêncios cúmplices, agendas opacas e uma arrogância antiga que insiste em tratar a democracia como propriedade privada. Fingir surpresa é insultar a inteligência coletiva.
Na Madeira, Miguel Albuquerque personifica anos de desgaste, clientelismo político percebido, promessas recicladas e um poder fechado sobre si próprio. Governa como quem administra um feudo, não como quem serve uma região plural. A sua liderança tornou-se um fardo eleitoral, afastando cidadãos, desmobilizando eleitores e alimentando a rejeição. Não foi azar: foi consequência.
Em Lisboa, Luís Montenegro falhou em compreender o país real e, sobretudo, a Madeira real. Optou por uma estratégia distante, tecnocrática, fria, incapaz de gerar entusiasmo ou confiança. Um primeiro-ministro que não escuta, não agrega. Um partido que não se renova, não vence. A campanha presidencial pagou essa fatura integralmente.
E há ainda o peso simbólico, e político, de Aníbal Cavaco Silva. A sua sombra continua a pairar sobre o PPD como um fantasma de um tempo esgotado. Intervenções calculadas, leituras enviesadas da realidade e uma nostalgia autoritária disfarçada de “experiência” apenas afastam gerações inteiras. O país mudou. O eleitorado também.
O problema maior, porém, não é apenas quem aparece. É o que se esconde. A perceção pública de jogos de bastidores, círculos fechados, influências discretas e agendas não escrutinadas mina a confiança democrática. Portugal não é uma sala reservada. A Madeira não é um clube privado. O poder não pertence a lojas discretas, grupos secretos, elites económicas ou castas políticas.
A Madeira e Portugal pertencem aos cidadãos comuns: madeirenses e porto-santenses, açorianos e continentais, trabalhadores, desempregados, jovens e reformados, anónimos que votam e muitos que já desistiram de votar. Quando esses cidadãos se afastam, a culpa não é deles. É de quem transformou a política num exercício de vaidade e controlo.
Esta derrota não foi um acidente eleitoral. Foi um aviso democrático. Ignorá-lo será insistir no erro. E insistir no erro é abrir caminho ao colapso da confiança pública. A democracia não cai de um dia para o outro. Apodrece quando os responsáveis se recusam a assumir responsabilidades.
