Revolução de sofá com cheiro a mofo.


H á quem jure que votar no CHEGA, na Madeira, é um acto revolucionário. Cool, dizem. Rebelde. Anti-sistema. Uma espécie de punk eleitoral de pantufas. Só que não. Se os madeirenses quisessem mesmo ser revolucionários, a sério, com espinha dorsal e risco social incluído, tinham feito o impensável, votado no PS. Sim, no PS. O mais antigo, persistente e simbólico inimigo do PPD na Região. Isso sim teria sido uma pedrada no charco. O resto é cosplay político de feira medieval, com espadas de plástico e discursos de cartolina.

Votar em André Ventura não é revolução; é reciclagem. É o déjà-vu autoritário embrulhado em marketing agressivo. A Madeira já conhece bem este filme, um líder forte, omnipresente, carismático, dono da verdade e da praça pública. Chamou-se Alberto João Jardim e governou de 1978 a 2015 como quem manda num condomínio fechado com megafone. Agora, muda-se o actor, mantém-se o guião. O palco é o mesmo, o aplauso também. Só o figurino é mais barato e o tom mais histérico.

O voto no CHEGA não revela coragem política; revela uma paixão mal disfarçada por líderes de voz grossa e soluções simples para problemas complexos. É o culto do “diz-me o que pensar que eu agradeço”. É a política reduzida a frases curtas, raiva longa e memória selectiva. Fascínio por ditadores? Talvez não assumido. Mas a pança autoritária está lá, confortável, alimentada a slogans e ressentimento.

Se se confirmam os resultados presidenciais na Madeira, o sentimento não é surpresa, é vergonha alheia. Um capítulo pouco abonatório da nossa democracia, escrito com erros ortográficos cívicos e sublinhado a ignorância voluntária. O tal “povo superior” ficou encantado com o Salazarito de serviço? Superior em quê? Na arte de confundir barulho com coragem? Ou na habilidade de trocar pensamento crítico por gritaria?

Há dias em que nos envergonhamos da corrupção, outros da desigualdade. Hoje é diferente. Hoje é o dia em que dói admitir a falta de civismo político e de cultura democrática de uma parte significativa do eleitorado madeirense. Não é tragédia grega; é farsa regional. E o pior? A plateia aplaude de pé, convencida de que está a fazer História, quando apenas repete caricaturas do passado.

Revolução? Só se for de sofá. Com comando na mão, consciência em modo avião e um líder forte a prometer tudo, enquanto não explica nada