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ivemos rodeados de empréstimos: ideias, sabores, modos de ver. Tudo o que nos define é, em boa parte, uma colecção de estranhos presentes. E, ainda assim, há quem empunhe a palavra “estrangeiro” como se fosse um escudo para esconder a sua própria mistura.
Eu sou teu vizinho. Não sou um mito nem um luxo, sou a soma das trocas que recusas reconhecer. Quando apontas o dedo ao outro, esqueces que o teu dia começa com um grão cultivado longe; que aquilo que cantas, comes e calculas chegou até ti por mãos alheias.
Chamar-se-estrangeiro a quem partilha a rua é recusar a história comum. É recusar a evidência de que a nossa vida é construída em conjunto, por migrações, encontros, trocas e resistências. Reconhecer isso não diminui ninguém; humaniza todos.
Se a identidade é um mosaico, então a única coerência que sobra é a escolha: viver de portas fechadas ou viver de portas abertas com sentido crítico. Ser vizinho é aceitar essa escolha. Ser humano é escolher a comunhão em vez do medo.
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