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Anti-Sistema à Conta do Estado.

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É

 preciso começar por dizer o óbvio, a hipocrisia tem rosto e assinatura. Falamos de quem se veste de «anti-sistema» nas sondagens e no palco, mas assinou cheques do sistema quando lhe convinha. Não é apenas incoerência: é traição ao discurso que vende às praças e às câmaras.

Dizem-nos que a revolta é pura, que tudo o que está à frente é corrupto, podre e indigno. Ótimo. Então expliquem-nos como se explica receber, durante anos, verbas do mesmo aparelho que agora insultam. Quando o dinheiro entrou religiosamente na conta — bolsas, subvenções, contratos — a indignação tirou férias, o protesto fez uma pausa e o purismo ficou em modo de espera.

Reproduzimos números porque os números não se cansam de ser incómodos: em 2009 — 27.940,00€; em 2010 — 27.340,00€; em 2011 — 20.510,00€. Três anos, 75.790,00€ no conjunto; cerca de 2.105€ mensais. É um balanço que, traduzido em relato moral, soa a contradição crua: o anti-sistema que viveu à conta do sistema.

Isto não é jornalismo de salão. É uma proclamação para a rua: quem pede sacrifícios, votos e confiança não pode recusar as perguntas inconvenientes. A hipocrisia é um luxo que o público não pode pagar. Exige-se coerência: se a crítica ao «sistema» é genuína, que se explique cada apoio recebido. Que se mostre como se converteu o financiamento institucional em pureza ideológica. Sem explicações, fica a palavra «farisaísmo».

A questão é política e moral. Não se trata apenas de contabilidade: trata-se de integridade pública. Um porta-voz da cruzada anti-elite que acumulou anos de apoio do aparelho de Estado devia, no mínimo, assumir e justificar. Preferem o silêncio, a evasiva, a ironia rancorosa. Preferimos respostas.

Portanto: não aceitamos sermões de quem almoçou à conta do elenco que agora acusa. Não queremos demagogos com facturas pagas pelo mesmo «sistema» que prometem destruir. Queremos coerência, não faturas. Queremos ação, não teatro. Quem quiser liderar a revolta tem de começar por fazer o inventário das próprias dependências.

O resto — a fúria, a contestação, as faixas e as palavras de ordem — vem depois. Porque a rua sabe distinguir quem paga a sua própria retórica e quem compra aplausos com o dinheiro dos outros. E nesta conta, a hipocrisia é sempre a primeira despesa a apontar.

E não se esqueçam: a coerência não se proclama, conquista-se. A rua pede explicações, não desculpas vazias.

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