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a sexta-feira, dia 30 de janeiro de 2026, a página oficial do Município de São Vicente divulgou as remunerações do executivo. Números claros, públicos, verificáveis: Presidente da Câmara — 3349€; Vereadores — 2679,20€; Chefe de Gabinete — 2411,28€; Adjuntos — 2143,36€; Secretária — 1607,52€; Chefe de Divisão — 2867,27€. Transparência administrativa? Em teoria, sim. Mas a transparência não é apenas publicar tabelas — é sustentar a palavra dada quando as luzes da campanha se apagam.
Durante a corrida eleitoral de 2025, José Carlos Gonçalves afirmou que não pretendia receber o salário de presidente. Disse não precisar. Disse servir por dever, não por ganho. As promessas públicas criam responsabilidades públicas. Quem pede confiança tem de praticar a coerência — não como slogan, mas como regra de sobrevivência política.
Agora sabe-se que a proposta de renúncia foi levada à reunião para formalização, ao mesmo tempo que a autarquia expõe as remunerações e confirma uma situação descrita como excecional. Excepcional para quem? A política vive desta distância perigosa entre o que se diz e o que se faz. E a credibilidade mede-se precisamente aí.
O discurso oficial insiste no “rigor” e na “transparência”. Ótimo. Então que o rigor comece pelo esclarecimento integral. Porque divulgar números sem dissipar dúvidas não cria confiança — gere suspeitas.
Acresce um pormenor que não é pormenor: a futura tutela da frota municipal por uma seguradora ligada ao universo empresarial do próprio presidente, ainda que a gestão tenha transitado para a esfera familiar. Legal? Talvez. Prudente? Eis a questão que uma comunidade adulta tem o direito de colocar sem pedir licença.
Não se trata de histeria nem de caça às bruxas. Trata-se de memória democrática. A confiança institucional assenta em dois pilares frágeis: a promessa responsável e a prestação de contas. Quando um compromisso parece vacilar, o silêncio não protege — corrói.
Durante anos, ouviram-se acusações duras contra o anterior executivo, invocando peculato e incompetência. A exigência era máxima. A bitola moral, implacável. Essa mesma bitola não pode agora encolher por comodidade. A ética pública não muda com a cadeira do poder.
Servir não é enriquecer a biografia; é honrar o mandato. Governa-se para os cidadãos, não para as zonas de conforto. E quem acredita que a memória coletiva é curta arrisca-se a descobrir o contrário da forma mais ruidosa.
São Vicente não precisa de salvadores — precisa de clareza. Mais transparência fortalece todos. Clarificar regras evita suspeitas. O escrutínio responsável melhora a governação.
Vicentinos, atenção: a confiança não é um cheque em branco. As promessas não são ornamentos de campanha. São compromissos. E os compromissos, quando quebrados, cobram sempre o mesmo preço — a legitimidade.
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