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Sob o discurso da “formação”, da “descoberta de novas vozes” e da “missão cultural”, observa-se um modelo de funcionamento que levanta sérias reservas éticas e artísticas. Quem avalia talentos e fala em nome do Fado deve demonstrar competência técnica, autoridade cultural, transparência na gestão e respeito pelos profissionais. Tudo o resto é fachada.
A chamada “formação de novos talentos” tem servido para justificar práticas que desvalorizam o trabalho artístico. Profissionais pagos abaixo do justo valor coexistem com o uso sistemático de amadores para preencher cartazes e reduzir custos. Não se trata de criar escola nem lançar vozes, mas de baratear a arte. O Fado não se constrói com números, constrói-se com rigor e respeito por quem vive dele.
Em paralelo, assiste-se a uma estratégia de açambarcamento cultural. A presença constante da associação em eventos municipais e iniciativas públicas é apresentada como mérito, mas na prática gera controlo e exclusão. Quem não se submete à sua órbita vê o trabalho desvalorizado ou bloqueado. A cultura não pode funcionar sob a lógica do “ou estás comigo ou estás contra mim”.
Essa lógica tornou-se visível na mais recente edição do Fado Funchal. Foi comentado no meio artístico que um elevado número de convites, na posse de elementos ligados à associação, não foi utilizado nem redistribuído, contribuindo para vazios na plateia em concertos de outros artistas. O efeito foi prejudicar visualmente espetáculos alheios e fragilizar colegas de profissão, atitude incompatível com qualquer ética cultural.
A este quadro soma-se um discurso recorrente que desvaloriza artistas independentes, sugere dependência de validação externa e reforça a ideia de que o sucesso só é possível mediante um único crivo. Confunde-se lotação de salas com qualidade artística e assume-se a preferência por artistas de fora em detrimento dos criadores locais. Tudo converge numa ideia preocupante: a de que o Fado na Madeira só conta se passar por um centro único de poder.
Impõe-se, por isso, uma reflexão séria por parte das entidades públicas que legitimam estas práticas através de apoios e parcerias. Questionar critérios é também defender a cultura e o Fado enquanto património coletivo. Este género merece ética, pluralidade e respeito pelos artistas, e a Madeira merece bem melhor.
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