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CHEGA não fala porque não sabe?

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Ou não fala porque não pode?

N

a Madeira política há fenómenos meteorológicos curiosos. Temos o vento leste, a maresia persistente, as maiorias absolutas que duram mais do que certas obras públicas e agora temos um fenómeno ainda mais raro: o anticiclone seletivo da indignação.

Funciona assim: quando surge um tema polémico, instala-se uma tempestade parlamentar. Chovem comunicados, trovejam conferências de imprensa, há partidos a pedir documentos com mais entusiasmo do que turistas a pedir poncha em dia de calor. O Juntos Pelo Povo exige papéis. A Iniciativa Liberal pede esclarecimentos com PowerPoint imaginário incluído. O Partido Socialista quer relatórios, atas, cronologias, talvez até uma árvore genealógica da decisão administrativa.

E depois há o partido que construiu a sua marca a dizer que vinha limpar isto tudo com lixívia política industrial.

Esse, de repente, descobre o silêncio contemplativo.

É fascinante. O partido que nunca perde uma oportunidade para denunciar o “sistema” resolve, perante um caso que domina conversas de café e debates institucionais, entrar em modo estátua do Largo do Município. Não comenta. Não propõe. Não pergunta. Não sugere. Nem um “vamos averiguar”, que é o equivalente político a “estou a caminho”.

Nada.

E não é um nada distraído. É um nada consistente. Um nada profissional. Um nada com método.

Enquanto todos discutem o que aconteceu, quem decidiu, quem sabia, quem autorizou, quem fiscalizou, há quem aparentemente tenha descoberto uma nova corrente ideológica: o minimalismo parlamentar. Falar pouco é uma arte. Não falar nada é uma filosofia.

Talvez seja estratégia de alto nível, dessas que nós, simples mortais, não alcançamos. Talvez seja xadrez tridimensional. Ou talvez o radar anticorrupção, tão apregoado em campanha, funcione por proximidade: apita muito quando o alvo está longe e entra em modo silêncio quando o assunto é aqui ao lado.

Porque a ironia maior não está na divergência — isso é normal em democracia. A ironia está na incoerência. Quem promete ser o megafone permanente contra tudo o que cheire a negócio duvidoso não pode transformar-se subitamente num mestre zen da política regional.

Na Madeira, onde todos se conhecem, onde os corredores do poder têm menos metros quadrados do que certos apartamentos em promoção, o silêncio é ensurdecedor. E quando o partido que mais gosta de dizer que “não tem medo” decide não dizer absolutamente nada, a pergunta deixa de ser sobre o caso em si.

Passa a ser sobre o silêncio.

Porque há duas formas de fazer oposição: gritar contra tudo ou escolher criteriosamente quando se grita. E quando a escolha é o silêncio num tema que faz todos os outros fala o silêncio começa a parecer discurso. Talvez seja apenas prudência. Talvez seja cálculo. Talvez seja tática. Mas na política regional, onde cada palavra é pesada ao grama e cada omissão é comentada ao quilo, ficar calado é também uma posição.

E às vezes, a posição mais barulhenta de todas.

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