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CHEGA, a ribeira não é caixote e São Vicente não é um aterro com vista.

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elo Funchal Notícias, notícia de 13 de Fevereiro, há uma tristeza própria no lixo, ele não cai do céu, não nasce do chão, não se multiplica por milagre. O lixo é sempre um retrato. Um retrato do que consumimos, do que descartamos, e, pior ainda, do que toleramos.

  • https://funchalnoticias.net/2026/02/13/alerta-para-situacao-de-lixo-em-sao-vicente-perto-da-ribeira/

E quando esse retrato aparece encostado à margem de uma ribeira, em terreno de declive, a escassos metros da água, com colchões já metidos dentro do leito como se fossem cadáveres macios de uma gestão que adormeceu… isso já não é “desleixo”. É uma assinatura do que se passa desde 3 meses.

A notícia fala de uma denúncia clara: junto ao novo estaleiro/armazém municipal, amontoa-se sucata e resíduos volumosos, colchões, móveis, eletrodomésticos, restos de uma vida doméstica que alguém empurrou para o lado errado da consciência. Tudo ali, colado à ribeira, como se a corrente fosse uma funcionária invisível encarregada de “tratar do assunto”.

E é aqui que a sátira deixa de ser luxo e passa a ser mecanismo de defesa. Porque há coisas tão absurdas que só cabem em caricatura: um “novo estaleiro” a servir de antecâmara para um aterro improvisado; um concelho que gosta de se ver ao espelho do turismo, mas oferece ao fundo do espelho um rodapé de colchões encharcados.

Chamem-lhe “gestão de resíduos”, se quiserem. Mas a população chama-lhe risco. Um risco ambiental, risco para a saúde pública, risco para a segurança. Não é poesia: é física. Está ali, em zona inclinada, pronta a deslizar. Basta a chuva puxar a corda. Basta uma cheia fazer o que as cheias fazem desde sempre: levar o que está solto.

E depois? Depois fingimos surpresa. Depois lamentamos as obstruções, o arrastamento, a água a engrossar com aquilo que nunca devia ter tocado. Depois fazemos de conta que a ribeira “trouxe” o problema, como se a ribeira fosse culpada por ter corrente, como se a natureza tivesse mau feitio.

A denúncia fala em pragas, escorrências, degradação da qualidade da água em todo o Concelho e um VERDADEIRO PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA. E há uma frase que devia doer mais do que dói: “alguns colchões já estão dentro da ribeira.”

É um detalhe pequeno e, ao mesmo tempo, o detalhe que enterra qualquer desculpa: quando os colchões entram na água, a dignidade sai da margem.

E não nos dizem que é caso isolado. Pelo contrário: descrevem um padrão, uma degradação do serviço, uma sensação de que o concelho está a ser governado no modo “logo se vê”, gerindo clientalismos, esse modo de estagnação pegajosa onde nada cresce: só se acumula.

O lixo é isso: a política do “acumula-se”. Acumulam-se colchões. Acumulam-se móveis. Acumulam-se desculpas. Acumulam-se silêncios. E, por fim, acumula-se uma pergunta que a população não devia ter de fazer: quem está a tomar conta disto?

Dizem ainda que o tema já foi levantado em Assembleia Municipal. Ótimo: então já existe palavra. Falta o resto: ação.

Porque uma autarquia não é um cartaz, nem uma frase de campanha para dias de festa. Uma autarquia é recolha que acontece, fiscalização que funciona, resposta que chega antes da próxima chuvada. Uma autarquia é a humildade de perceber que “resíduos volumosos” não são invisíveis só porque são incómodos.

E se isto é “apenas lixo”, então por que razão se deixa o lixo onde ele pode cair para dentro da ribeira? Por que razão se aceita que o declive seja uma rampa para a próxima vergonha?

O que se exige não é heroísmo. É o básico, o mínimo civilizacional:

  • remoção imediata do depósito junto à ribeira e limpeza das zonas já afetadas;
  • um plano público de recolha de volumosos (com dias, contactos e prazos);
  • um local de deposição controlado, vedado e fiscalizado;
  • transparência: explicar o que aconteceu, por que aconteceu, e como se evita repetir;
  • e, sobretudo, respeito por São Vicente. Porque uma vila não pode ser tratada como quintal de coisas mortas.

No fim, sobra uma imagem: a ribeira, que devia ser linha de vida, transformada em fronteira de abandono. E isso é o mais deprimente: quando o lixo encosta à água, encosta também a ideia de futuro.

São Vicente não merece esta estética da decadência. Nem esta normalização do indigno. Nem esta política de “deixa andar” que, um dia, vai mesmo andar, pela ribeira abaixo.

Votei, pelos vistos enganado, iludido, neste CHEGA, mas já CHEGA.

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