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O protagonista deste arquétipo é fácil de reconhecer, empresário veterano, carreira longa, consciência curta. Passou décadas a confundir empreendedorismo com território conquistado. Cresceu à sombra do dinheiro público, mas hoje prefere estacionar ao sol, dentro de um Porsche que grita “tenho 20 anos”, enquanto o espelho retrovisor devolve outra verdade.
Dizem que certos carros compensam. Não confirmamos, mas a frente do veículo fala sozinha. É grande. Desnecessariamente grande. Quase obscena. Freud teria material para um simpósio inteiro.
A crise não é de meia-idade. É de final de vida. Quando já não há levantamento, vem o ruído. Quando já não há legado, vem a pose. Quando já não há respeito, vem a velocidade máxima… em primeira mudança.
Pelo caminho, ficaram funcionários com as costas partidas, salários mínimos e discursos máximos sobre “família empresarial”. Ficou um mercado condicionado, onde a escolha é livre, desde que seja a mesma de sempre. Ficou a sensação de que a ilha é pequena demais para tanto ego, mas grande o suficiente para o sustentar.
No fundo, é isto:
- há quem envelheça com dignidade.
- há quem envelheça com dinheiro.
- e há quem envelheça a fazer vroom vroom para ver se ninguém repara no silêncio ético.
Exagero? Nem por isso. Triste? Bastante. Irónico? Como um Porsche baixo a raspar numa rua empedrada do Funchal. No fim, não é sobre um homem. É sobre um modelo económico fechado, politicamente tolerado, socialmente caro. Um modelo que envelheceu mal.
Como todos os sistemas que confundem ilha com feudo.
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