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O Evangelho não pode ser refém do regionalismo.

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i com estranheza e um crescente sentimento de desilusão as recentes declarações do Padre Silvano Gonçalves sobre a morte trágica de um homem oriundo do Bangladesh na nossa Região. Numa altura em que se exigia uma palavra de conforto às vítimas e uma reflexão ética corajosa, assistimos a um discurso de blindagem que parece confundir a missão pastoral com a defesa política do status quo.

​Em primeiro lugar, é perigoso — e teologicamente vazio — evocar a ideia de "raça" para descrever o povo madeirense. Ao tentar elevar o brio local para travar críticas, o autor esquece que a Igreja é universal e que não existe uma "natureza ética superior" baseada na geografia. Defender o "bom nome" da terra acima da busca da verdade sobre uma tragédia não é patriotismo; é um regionalismo redutor que asfixia a justiça.

​Mais grave ainda é o aparente divórcio entre estas palavras e a Doutrina Social da Igreja. Ao pedir que não se "ataque a política do betão", o Pe. Silvano está, na prática, a desproteger o trabalhador e a silenciar o dever cristão de denunciar o que está mal. A justiça social exige escrutínio. Não podemos, em nome de uma falsa paz social, ignorar as falhas estruturais que levam a acidentes mortais. O papel de um pastor é ser a voz dos que sofrem, e não o escudo de quem governa.

​A misericórdia não serve para calar quem exige transparência. A verdadeira obra de misericórdia, neste contexto, seria garantir que o lucro e o cimento nunca valham mais do que a vida humana. Esperava-se mais de quem tem o dever de guiar consciências pela luz do Evangelho, e não pela sombra da conveniência política.

​Com os meus melhores cumprimentos

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