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articipei num funeral na Igreja Matriz de Santa Cruz, na hora de almoço deste domingo. Bela cerimónia, apesar da tristeza. No fim, um filho dirigiu belas palavras à mãe falecida. Acabada a homenagem voltamos à vida real e todos nós na Missa tomamos conhecimento de algo inusitado.
A parte musical não teve um instrumento no grupo por imposição da Igreja, ou do senhor Padre, o acordeão, porque segundo o padre o acordeão não é um "instrumento litúrgico". Com esta idade, alguma, senti-me ignorante, não sabia que também havia instrumentos na Religião Católica que estavam proscritos ou excomungados. Se calhar ficou provado que foram feitos pelo demónio para atiçar as almas nos adros durante as Missas do Parto.
Confesso que me lembrei de duas situações, porque a política em Santa Cruz é quente, seria uma forma de manter dois irmãos fora da Igreja? Teria sido abusos nas Missas do Parto? Quando cheguei a casa fui averiguar e deu nisto:
1. O Argumento da Igreja (A "Norma")
A posição do padre baseia-se geralmente na Instrução Musicam Sacram e no Concílio Vaticano II. Para a Igreja:
- O Órgão de Tubos é o instrumento por excelência, devido à sua capacidade de elevar a alma a Deus.
- A "Dignidade" do Instrumento, a Igreja distingue entre instrumentos "profanos" (associados ao folclore, festas e danças) e "sacros". O acordeão, na visão conservadora, é visto como um instrumento de arraial, o que poderia distrair do mistério da Eucaristia.
2. O Argumento da Cultura (O "Sentir")
Em Santa Cruz e na Madeira em geral, o acordeão é o coração da música popular.
- Instrumentos de Cordas (havia dois no grupo a par do órgão, que não era de tubos): curiosamente, o padre aceitou cordas (provavelmente rajão ou machete, não consegui distinguir estava longe e de ouvido sou duro), que também têm origem popular, o que cria uma contradição interessante, por que é que o rajão pode ser "sacro" e o acordeão não? Pressuponho!
- A Inclusão vs. Rigidez: muitos fiéis defendem que o que torna um instrumento litúrgico não é a sua mecânica (foles vs. tubos), mas sim a intenção de quem toca e a letra do que se canta.
3. O Ponto de Tensão: Santa Cruz
Sendo a Igreja Matriz de Santa Cruz um monumento de grande relevância, o rigor do pároco pode estar ligado à preservação de uma "atmosfera" específica. No entanto:
- Estamos numa era em que o Papa Francisco apela à proximidade com o povo e à inculturação (trazer a cultura local para dentro da Igreja).
- Recusar um acordeão numa terra de tradições musicais tão fortes pode ser visto como um afastamento da Igreja em relação à realidade da sua comunidade.
Aquela Missa continua a ser linda de despedida a uma senhora, apesar deste episódio. Mas pergunto, o adro faz parte da Igreja? É que assim, todas as trupes de festeiros no final das Missas do Parto não são fiéis litúrgicos, deveriam ser banidos do adro. Pela quantidade seria uma Igreja vazia de fiéis.
Como vamos descalçar esta bota? Temos de olhar para a Igreja não como um bloco monolítico, mas como uma instituição que vive uma tensão constante entre o "Sagrado Universal" e a "Inculturação Local". Quantas Igrejas existem ou coexistem para explicar estes contrassensos? Não sou religioso, por isso posso falhar, mas quero tentar ajudar a Igreja. Nem sempre os crânios enxergam a melhor solução.
Existe 3 Igrejas? A Igreja do "Ritual Imutável" (do Padre da Igreja Matriz de Santa Cruz), com uma visão que defende que a Liturgia é um espaço de separação do mundo. Por isso, o acordeão é "profano" porque remete para o bailarico, a festa e o vinho. Para o padre, introduzi-lo na Matriz de Santa Cruz seria "contaminar" o sagrado com o mundano. Mas porque aceitou os instrumentos de cordas se havia um órgão (que não era de tubos)? Talvez por aqui entre o gosto pessoal disfarçado de dogma.
Outra Igreja da "Nova Evangelização", penso que é um grande contraste, mas há um exemplo inevitável, o Padre DJ Guilherme Peixoto. Também dá show à frente da Igreja, o objetivo é ir onde os jovens estão. Se os jovens ouvem Techno, a Igreja usa Techno para passar a mensagem de Cristo. O Padre Guilherme não toca música eletrónica dentro da celebração da Eucaristia (na Missa), mas em eventos paralelos ou festivais, inclusive em frente a Igrejas. A Igreja costuma ser muito mais liberal em eventos de massas como as Jornadas Mundiais da Juventude do que na Missa paroquial de domingo. É uma dualidade estranha, no festival pode-se tudo em frente ao Papa, na Matriz não se pode nada. Lembro que o Padre DJ Guilherme Peixoto, no meio do show insere mensagens do Papa, com a sua concordância, que paralelismo estamos a fazer com isto?
E mais uma Igreja, a do Papa Francisco (e agora Leão), é a Igreja que diz que a realidade é superior à ideia. Isto é profundo. O Vaticano permite que cada Bispo e por arrasto, cada pároco, decida o que é adequado à sua cultura local. O problema é que isso dá um poder quase "ditatorial" ao padre sobre o que é ou não litúrgico. Se calhar a juventude de Santa Cruz ultrapassou a assimilação da Igreja.
Confesso-me, sou pecador, mas tenho que dizer esta, ver mensagens do Papa em ecrãs gigantes enquanto soam batidas eletrónicas e depois proibir um acordeão acústico numa terra de músicos é, no mínimo, uma miopia cultural.
É Carnaval, ninguém leva a mal. Cenário de cortejo trapalhão, a alma chega às portas do céu e, antes de São Pedro abrir a boca, já leva com uma reclamação. Fico a aguardar pelo Padre DJ Guilherme Peixoto na Praça Dr. João Abel de Freitas.
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