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A crise em São Vicente, a fúria dos egoísmos.

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 política local transformou-se num espectáculo de vetos e vaidades. O actual presidente da câmara, José Carlos Gonçalves, mostrou que prefere o comando fechado a qualquer colegialidade; quem discordou viu os seus pelouros retirados e a voz silenciada. Esta centralização agrava a tensão e aproxima a gestão autárquica de práticas autoritárias, em que decisões vitais ficam confinadas a um pequeno círculo de poder.

Não se trata apenas de personalismos: há uma luta pelo tacho que corrói a legitimidade pública. De um lado, figuras que se comportam como abutres à espera de migalhas; do outro, quem ostenta “classe” e recusa o confronto, preferindo manter-se a salvo. A retórica de superioridade moral não substitui as políticas que resolvem problemas concretos, a habitação, os serviços e o emprego continuam à espera de respostas.

O jogo das acusações percorre toda a cena política local. Há quem ataque com linguagem de déspota; há quem, em contrapartida, exija eleições imediatas sem oferecer um plano alternativo. Os partidos e figuras envolvidas, incluindo CHEGA, PSD e a força socialista regional, PS‑M, partilham a culpa se a política se transformar em espectáculo e não em serviço público. Se faltou diálogo antes, que haja agora transparência e escuta real.

Se a intenção é derrotar o populismo e o oportunismo local, são necessárias três ações concretas: políticas tangíveis que respondam às dores diárias; organização contínua no terreno; narrativa que recupere emoção sem cair na provocação. A indignação deve ser convertida em planos e não em lamentos. Por políticas tangíveis entende-se programas de habitação acessível, planos de emprego local e reforço de serviços essenciais. Organização contínua passa por delegações locais, presença semanal e equipas formadas para resolver problemas. A narrativa precisa de recuperar o orgulho e oferecer segurança, com uma comunicação clara e objetivos mensuráveis.

Evitemos a tentação das generalizações fáceis. Reduzir toda a oposição regional a uma fórmula única é um erro analítico. Casos como este ilustram hipóteses, não provam leis. Um raciocínio sério exige comparação, dados e causalidade, não apenas vitupério. Só com uma análise rigorosa se definem remédios políticos credíveis.

A coragem cívica não é bravata nem postura de superioridade. Não é preciso sujarmo-nos na lama para disputar o poder: é preciso disciplina, equipa, persistência e propostas que respondam ao quotidiano. Quem sacrificou pelouros por princípios merece um voto de dúvida; quem preferiu o tacho, merece o veredicto das urnas.

O município pode sair desta página negra. Mas só com trabalho sério, diálogo contínuo e prioridade aos interesses da comunidade. Nada menos do que isto servirá para transformar a indignação em poder governativo e restabelecer a dignidade na política local.

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