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A sintonizar estações...

Governo dos filhos dos patrões!

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 XXV Governo Constitucional de Portugal, presidido por Luís Montenegro, instalou-se com a mesma familiaridade com que se entra numa sexta-feira de verão: sem perceber que fora do jardim há filas, salas de espera e carteiras vazias. Tomou posse em junho de 2025 e, por entre sorrisos de protocolo, a demissão da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, comprovou o óbvio — por trás da fachada de competência há fragilidade quando a crise chega.

Vivem numa bolha de privilégio. Para eles «trabalhar para viver» sempre significou mandar ou contratar; nunca atender uma urgência médica, gerir uma turma com falta de professores, ou contar as moedas até ao final do mês. A sua linguagem é de powerpoint e gabinete; a nossa, de fila de emergência e reformas que não chegam. O efeito é um país com serviços públicos cada vez mais degradados e promessas brilhantes que se desfazem ao primeiro vento de controvérsia.

A retórica oficial fala de eficiência, coesão e crescimento. Na rua lê-se outra versão: consultas de família que desaparecem do mapa, escolas com turmas além do humano, polícias locais sem meios básicos, famílias a fazer contas ao tostão. Esta desconexão não é acidente. É escolha política. Cortes, privatizações e prioridades pró-capital aparecem não por descuido, mas por opção — e a conta é sempre para o mesmo: o cidadão comum.

Há uma estratégia implícita, governar para os que já têm. Favorecer grandes interesses, abrir portas a quem já tem chaves e deixar ao resto a fatura. Quando o Estado abdica do básico, a democracia empobrece. A justiça social não é uma indulgência retórica; é um contrato mínimo entre poder e povo.

Não é arrogância: é educação de berço que confunde compaixão com custo. A soberba de origem cria administradores que medem vidas em indicadores e urgências por KPIs. É preciso lembrar-lhes que as contas do dia a dia não se resolvem com diapositivos; resolvem-se com sarjetas limpas, médicos no centro de saúde e escolas com professores suficientes.

Recuperar o interesse público é urgente e simples nas suas linhas mestras: reforçar hospitais, garantir médicos de família, contratar professores, equipar as forças locais e proteger rendimentos mínimos. Não são caprichos ideológicos. São obrigações de um poder que afirma servir a comunidade.

Quem manda deve provar que percebe os cálculos básicos da sobrevivência: quanto custa pôr comida na mesa, quanto pesa uma fatura de energia, quanto vale uma consulta que tarda. Caso contrário, preparem-se: não haverá powerpoint que resista ao cansaço das ruas nem voto que não recorde quem viveu ao lado do povo. Nas ruas e nas urnas, o preço da indiferença será cobrado.

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