V
Quem diria que de dentro do próprio PSD se atentaria à sobrevivência institucional do PSD de Luís Montenegro com a tentação sebastiânica de um regresso de Passos Coelho, agora como potencial ponte para o Chega.
Montenegro não é "santo", mas é, neste momento, o último dique que impede a absorção do PSD pela lógica da direita radical. A sua estratégia de "não é não" ao Chega tem sido testada ao limite, especialmente com a pressão de figuras internas que veem em Passos Coelho o único líder capaz de unir as "duas direitas". No entanto, as "jogadas" para o trazer de volta podem ser o cavalo de Tróia que acaba com a identidade social-democrata do partido. Nunca se esquecer que Albuquerque e seu grupo são Passistas, basta repassar o passado e as bocas de AJJ quando Passos era primeiro ministro. O que se passa na Madeira também é insensibilidade social.
André Ventura percebeu que, para chegar ao poder, precisa de "normalizar" a sua imagem. O uso da gravata laranja e a invocação de Sá Carneiro são exercícios de semiótica política. Tenta convencer o eleitorado mais velho do PSD de que o Chega é o "verdadeiro" herdeiro da firmeza de Sá Carneiro, ignorando a profunda componente humanista e reformista-social que o fundador do PSD defendia.
Ventura não é um corpo estranho, ele é o resultado de uma ala do PSD que sempre privilegiou o populismo punitivo e um liberalismo económico despojado de amortecedores sociais. Passos Coelho pertence à "costela que degenerou em Chega". O "Passismo" introduziu um liberalismo de austeridade que, para muitos, rompeu o contrato social da social-democracia clássica. Cuidado com os peões que se dispersão para essa fé, como Maria Luís Albuquerque na "Europa" a brincar com as poupanças.
Embora Passos alegue imperativos externos, a sua governação foi "além da Troika", instalando uma visão de Estado mínimo que abriu caminho para o discurso do Chega sobre a "pilhagem dos impostos". Isto é que seria privatizar mais e à louca apoiado pelo Chega. Ao contrário de Sá Carneiro, que via o Estado como um instrumento de justiça e progresso para os mais desfavorecidos, a visão que Passos agora parece validar (ao não rejeitar liminarmente alianças com a direita radical) foca-se na "limpeza" do sistema, aproximando-se perigosamente da retórica de Ventura.
No início coloquei um link, o texto do Madeira Opina que alerta para o cenário político que se ensaia (link), um governo onde Passos Coelho seria o "garante" intelectual e Ventura a "força de choque" popular. Este eixo seria a morte definitiva do PSD como partido do centro-direita equilibrado. Invocar Sá Carneiro para justificar esta união é, no mínimo, um anacronismo histórico; Sá Carneiro lutou contra ditaduras e extremismos, nunca os usou como muleta de poder.
A vigilância sobre estas movimentações é essencial. Se Montenegro cair e o PSD se entregar ao "Passismo-Venturismo", o país arrisca uma guinada ideológica que coloca o liberalismo económico acima da dignidade democrática e da coesão social.
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