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ão é um provérbio antigo nem uma expressão herdada da tradição popular. É apenas a forma mais honesta de descrever aquilo em que, demasiadas vezes, se transformou a máquina da administração pública.

Diz-se frequentemente que a função pública é um refúgio de estabilidade. Talvez seja. Mas também se tornou, em muitos casos, um curioso oásis onde bons profissionais coexistem com estruturas pesadas e decisões difíceis de compreender. Entre cargos pouco claros e funções mal definidas, multiplicam-se lugares onde poucos sabem exatamente o que fazem, embora todos saibam quanto recebem.

Pelo caminho ficam também aqueles que começaram motivados e acabaram resignados. Perceberam rapidamente que o esforço raramente altera o destino. Trabalhe-se muito ou pouco, o salário chega sempre ao fim do mês com a mesma pontualidade. A excelência e o “muito bom” parecem, por vezes, já ter dono antes de qualquer avaliação começar.

O dinheiro público corre com uma facilidade quase ritual. Investe-se não necessariamente onde faz falta, mas onde existe financiamento disponível. “Temos de gastar, é um fundo”, repete-se como argumento suficiente.

Um exemplo ajuda a perceber esta lógica.

A lota do Porto Santo foi remodelada ao abrigo do programa europeu MAR 2030, num investimento de 345.702,52 euros, dos quais cerca de 70% financiados pela União Europeia. Aos cofres públicos coube cerca de 103 mil euros.

O problema surge quando se olha para a utilização da infraestrutura. A lota encontra-se praticamente sem atividade, com um único funcionário e descargas de pescado tão raras que se contam pelos dedos de uma mão. Este ano, o número é particularmente expressivo: zero descargas.

Apesar disso, não faltam deslocações institucionais ao Porto Santo. Comitivas de dirigentes e técnicos visitam a infraestrutura renovada, naturalmente com custos de viagens, ajudas de custo e estadias suportados, como sempre, pelo contribuinte. Pelo menos garantem boas fotografias institucionais.

Entretanto, na lota do Funchal, principal centro de descargas de pescado da ilha da Madeira, a máquina de gelo encontra-se avariada há cerca de cinco meses. Um detalhe técnico, mas essencial para quem trabalha diariamente no setor.

Talvez exista uma estratégia ainda por revelar. Quem sabe se a solução passará por pedir às embarcações que façam um pequeno desvio de cerca de 70 quilómetros de mar até ao Porto Santo sempre que precisarem de gelo ou de descarregar o pescado.

Entre investimentos pouco utilizados e necessidades básicas por resolver, resta uma pergunta simples: onde estão realmente as prioridades?

Enquanto alguns profissionais tentam manter o sistema a funcionar, outros parecem garantir apenas que os tachos, os tachinhos e os tachões continuam bem acomodados.

E assim segue a nossa rica função pública.

  • https://www.facebook.com/madeiragov/posts/pfbid07iqyeuqGykwdN6PpppyjtdYPyn1Va4raPcbSJn1qbdQnyQTdp3Pb77bhPk1XrxT9l
  • https://www.dnoticias.pt/2026/3/7/483885-jpp-quer-esclarecimentos-sobre-a-falta-de-gelo-na-lota-do-funchal/
  • https://mar2030.pt/noticia/estrelas-do-mar-2030-na-madeira-remodelacao-da-lota-do-porto-santo
  • https://www.instagram.com/p/DVis95tjXSQ/

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