A
situação que aconteceu recentemente no Funchal mostra um quadro preocupante da política local. Ainda hoje, as escolhas de representantes públicos continuam a ser orientadas por critérios que não valorizam a renovação, a participação e a integração das novas gerações. O que vimos foi o contrário: a juventude perdeu o seu único representante na vereação. E isso não aconteceu por causa de uma divergência democrática ou um debate político, mas sim por comportamentos pessoais incompatíveis com a função.
É grave notar que essa pessoa chegou ao cargo sem um histórico político, social ou cívico consistente. Isso levanta dúvidas sobre como as estruturas partidárias escolhem seus representantes. Muitas vezes, parece que a proximidade e a conveniência são mais importantes do que o mérito e a competência.
Esse caso não é um erro isolado. Ele mostra um problema mais profundo: a prática de ver cargos públicos como prêmios de fidelidade e não como funções de grande responsabilidade. Quando isso acontece, situações graves como essa deixam de ser exceções e se tornam consequências previsíveis de um sistema fragilizado.
O que acontece depois do incidente é ainda mais perturbador. Em vez de um afastamento claro da vida pública, vemos a reciclagem dentro do próprio sistema, com a transição para funções de assessor. Isso reforça a ideia de que existe um circuito fechado onde os erros não têm consequências reais e onde prevalece a lógica dos chamados “tachos”. Não é uma reabilitação política, mas sim uma proteção interna, alimentada por redes de influência que garantem lugar e rendimento independentemente do desempenho ou da conduta.
Tudo isso desgasta a confiança nas instituições e afasta, principalmente, os jovens da participação cívica e política. A mensagem é clara e negativa: não é o mérito ou o trabalho que abrem portas, mas sim a proximidade às estruturas partidárias.
Mesmo com uma situação grave como a condução sob o efeito do álcool e o atropelamento de uma pessoa, é chocante ver como a pessoa tenta agora reconstruir sua imagem pública. O recurso às redes sociais para se vangloriar de que já não bebe mostra uma falta de noção e um desrespeito evidente pela gravidade dos seus atos. Mais do que uma tentativa de redenção, isso demonstra ausência de responsabilidade e de vergonha.
No fundo, o que esse caso expõe não é apenas uma falha individual, mas um sistema que continua a proteger os seus, mesmo quando falham de forma grave. Enquanto essa cultura persistir, não haverá verdadeira renovação política, apenas a repetição dos mesmos erros com protagonistas diferentes.
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