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Quando as obras públicas aceleram mais depressa que os ralis na Madeira

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À

 distinta atenção da Polícia Judiciária, especialmente aos colegas do continente, que de vez em quando têm de atravessar o Atlântico administrativo para perceber o que se passa neste pequeno paraíso. Convém partilhar uma curiosidade madeirense que, estranhamente, insiste em reaparecer como aquelas histórias que ninguém quer contar, mas que toda a gente já ouviu.

Recordam-se da chamada Operação Zarco, investigação que trouxe para a esfera pública suspeitas sobre relações particularmente… calorosas entre decisores políticos e alguns empresários da construção? Pois bem. Uma das empresas referidas nesse contexto, a RIM – Engenharia e Construção, parece continuar a ter uma notável capacidade de permanecer próxima de decisões públicas importantes.

Eis que agora surge novamente associada a um projeto de grande dimensão publica, o novo porto do Porto Santo. Nada de extraordinário, claro. Afinal, numa economia pequena, é perfeitamente normal que as mesmas empresas apareçam repetidamente em obras públicas de grande valor. Coincidências acontecem. Muitas vezes. Repetidamente.

Mas como a curiosidade é uma virtude cívica, talvez valha a pena fazer algumas perguntas simples.

Por exemplo, será que alguém na Madeira terá recentemente passado a usufruir de uma nova e confortável casa construída pela mesma empresa RIM?

E já agora, quem terá sido o feliz contemplado por tamanha generosidade construtiva? Terá sido apenas um cliente normal de mercado? Ou alguém com responsabilidades públicas e acesso privilegiado a decisões sobre contratos e investimentos pagos, inevitavelmente, com dinheiro público?

Outro detalhe pitoresco, o principal rosto empresarial da RIM é A. G. F., sócio maioritário da empresa. Para quem acompanha a vida regional, o nome também é familiar por outra razão bem mais animada, é presença frequente ao volante no Rali Vinho Madeira, uma das provas mais mediáticas da região.

Nada contra o desporto automóvel, claro. Aliás, até é simbólico, há quem conduza carros de rally… e há quem pareça conduzir com grande destreza no circuito das obras públicas.

Perante tudo isto, talvez seja apenas excesso de imaginação perguntar:

  • Quem beneficia realmente destas grandes obras?
  • Quem ganha os contratos?
  • Quem constrói as casas?
  • E, mais interessante ainda, quem passa depois a habitá-las?

Porque na Madeira, às vezes, os projetos públicos parecem funcionar como aqueles ralis de regularidade, tudo muito rápido, muitas curvas apertadas… e no fim só alguns sabem exatamente quem chegou primeiro e porquê.

Fica a pergunta, para a sempre diligente Polícia Judiciária, não será prudente dar mais uma espreitadela a este curioso cruzamento entre obras públicas, casas novas e amizades antigas?

Na pior das hipóteses, não se descobre nada.

Na melhor, talvez se perceba finalmente porque é que, nesta ilha, certas coincidências aceleram sempre na mesma direção.

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