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Tudo isto parece os dias que precederam o 20 de fevereiro de 2010

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Bom dia, é um paralelismo e não para desassossegar ninguém, até porque parece que os próximos dias vão serenar ao nível da chuva, por isso escrevo hoje.

O

 20 de fevereiro não foi marcado por um dia de chuva intensa, mas por uma sequência implacável.  A saturação dos solos foi o "assassino silencioso" que muitos ignoram, mas que quem viveu o 20 de fevereiro de 2010 nunca esquece. O inverno de 2009/2010 foi um dos mais chuvosos de que há memória. Fevereiro começou logo com solos pesados. Nas duas semanas anteriores ao dia 20, choveu quase diariamente.

A orografia da Madeira funciona como uma esponja. Quando chove dias a fio, a terra absorve até ao limite. No dia 19 de fevereiro, a "esponja" já estava totalmente encharcada; não cabia nem mais uma gota. Quando a depressão muito ativa chegou na madrugada de dia 20, a água já não tinha para onde ir. Não houve infiltração, houve apenas escorrência superficial. A água galgou as encostas, arrastou o entulho e as pedras, transformando as ribeiras em canais de destruição que todos recordamos.

Hoje em dia temos umas construções nas ribeiras, sobretudo no Funchal, que pretendem ser um crivo à descida de entulho e inertes, contudo, lembro que podem encher e acabarem "achanadas" pelos inertes e tudo passa por cima. Estou especialmente preocupado com o facto de terem feito corta-fogos a pensar no Verão e esqueceram-se de que são canais quando os terrenos ficam encharcados para arrastar todos os inertes expostos.

Não nos esqueçamos que os eventos de Verão e de Inverno vão ser mais intensos.

A chuva persistente que temos observado nos últimos dias na Madeira segue um padrão preocupante de acumulação. O perigo agora não é a intensidade de um temporal súbito, mas a persistência. Dias seguidos de chuva moderada, mas constante, estão a carregar novamente os aquíferos e a ensopar os terrenos das encostas. Bom para os lençóis freáticos, precisávamos! Ainda por cima com o exagero de consumos que temos e que vão piorar.

Estive para escrever antes, mas olhei para as previsões e achei que não deveria preocupar as pessoas. Mas depois começo a ver derrocadas e pedras a cair, são os primeiros sinais da catástrofe, a sorte é que não há previsão para mais chuva nos próximos dias. Só nos faltava mais uma depressão a sério.

Com o solo saturado, o peso da terra aumenta drasticamente. É nestes dias, após uma semana de "molha" contínua, que o risco de quedas de pedras e pequenos deslizamentos de terra nas estradas regionais dispara, mesmo que não esteja a ventar ou a chover "a cântaros". São as nossas areias movediças.

  • https://www.jm-madeira.pt/regiao/ribeira-brava-pedra-de-grandes-dimensoes-caiu-na-saida-da-via-rapida-OH19878042

A grande diferença de 2026 para 2010 é que as ribeiras do Funchal e arredores foram intervencionadas (aprofundadas e limpas). No entanto, nas zonas altas e nas encostas não intervencionadas, a natureza continua a obedecer à mesma regra, solo saturado é solo instável, e as obras têm um limite de carga. Resta saber quais foram os cálculos. O perigo muitas vezes surge depois da chuva parar, quando o peso da água acumulada na terra faz com que taludes e muros de suporte cedam. Se cederem com chuva persistente e forte estão temos novas frentes de desastres que nunca foram identificados.

É uma ligeireza considerar que estamos salvos agora com as obras, a máquina da natureza continua a funcionar, está cada vez mais enfurecida. Vigilantes sempre.

Lembrem-se da quantidade de inertes que chegaram ao Funchal e se algo igual ao 20 de fevereiro não preenche e galga as construções que fizeram. Criaram-se novos perigos...

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