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Quando vejo asneiras na estrada peno em turistas, estrangeiros, mas nunca deixamos de ter nos nossos defeitos. Também importamos hábitos de bebida. A notícia é de um realismo que gela o sangue, 201 condutores detidos com excesso de álcool numa única semana, em plena operação de Páscoa. Ela ainda não acabou. Afinal a abstinência é como o padre que prega e sai de bólide.
Enquanto o país tenta celebrar em família, as nossas estradas transformam-se num cenário de "velozes e furiosos" à moda do copo, o grade negócio da terra como se fosse casinos online na TV. A responsabilidade individual parece ter sido deixada ao balcão da primeira taberna. Mas na Madeira, este cocktail de imprudência ganha um ingrediente extra que torna a mistura explosiva, a saturação turística e a orografia que não perdoa. Temos inexperientes sem destreza, cromos encartados de fora, hesitantes do GPS, camelos do norte, que os há bem atrevidos.
O cenário é perfeito para a tragédia, sentimos na estrada, álcool, aselhas e perdidos. De um lado, o local que, imbuído de um excesso de confiança perigoso, acha que conhece a estrada como a palma da mão mesmo depois de várias ponchas, mesmo sério e não acredita nas barbaridades que nos surpreendem na estrada. Do outro, o turista que, conduzindo um carro de aluguer que mal domina, tenta decifrar o GPS entre curvas apertadas, ravinas e declives que o deixam em pânico. No meio disto tudo, a falta de civismo. A entalar o trânsito e o estacionamento, em contramão, a atravessar o contínuo e a fazer inversão de marcha, sempre por fora na rotunda, a subir ilhotas e a derrubar postes para atalhar.
O "nosso" acidente não é uma questão de se, mas de quando. Quando é que o condutor alcoolizado se vai cruzar com o turista perdido que trava a fundo numa zona de visibilidade reduzida? Quando é que a falta de reflexos de um vai colidir com a hesitação do outro?
Os números da PSP mostram uma realidade assustadora de 3.797 contraordenações. É um sinal claro de que a fiscalização existe, menos nas corridas da via rápida, mas a mentalidade não muda. Ou será coisa estrangeira que chega e desaparece na firme crença que o papelinho não chega a casa? Há uma sensação de impunidade ou, pior, um fatalismo cultural que aceita a condução sob o efeito do álcool como "parte da festa".
A pressão turística, que se sente em todo lado, coloca nas nossas estradas milhares de condutores que não estão habituados à exigência técnica das nossas vias. A mistura de alguém que não sabe por onde vai com alguém que já nem sabe onde está é a receita para o desastre. Só faltava 201 bêbados detectados numa semana, fora os que se salvaram.
Cada um destes 201 condutores é uma arma carregada. O custo não se mede apenas em multas ou apreensões, mede-se nas duas vítimas mortais e nos 429 feridos registados nesta operação. Os que foram apanhados. São famílias destruídas porque alguém achou que "estava bem para conduzir".
Este caos forma-se no turismo desmedido e na economia da bebida.
Madeira, ilha da impunidade, onde o espaço é curto e a densidade de tráfego é cada vez maior devido ao turismo desenfreado, a estrada tornou-se uma roleta russa. Se não houver uma mudança radical na fiscalização, com tolerância zero e presença constante e, acima de tudo, na consciência de quem se senta ao volante, continuaremos a ler estas notícias com a angustiante certeza de que o próximo acidente pode estar ao virar da próxima curva, esperando apenas pelo próximo brinde irresponsável...
Irrita-me conduzir, porque conduzo por mim e pelos outros, esta coisa dos massivos destrói tudo, é como viajar de avião que nalgum tempo já era férias e agora é um pesadelo. Adeus qualidade de vida.
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