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Engenharia civil sem alunos

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Um caso de amor (académico).

H

á instituições que formam alunos. Outras formam carreiras. E depois há aquelas mais evoluídas, que formam famílias. Recentemente, a universidade local da ilha da madeira decidiu investir no futuro da engenharia civil. Duas vagas para professor auxiliar em engenharia civil num curso sem alunos (Edital 902/2025). Mas isso não desmotiva uma visão estratégica. Pelo contrário. Onde não há alunos, há silêncio. E onde há silêncio, há espaço para decisões verdadeiramente… criativas.

Abrem-se duas vagas. Não uma, duas.

Duas vagas, note-se. Porque uma seria suspeito. E é aqui que entra a beleza da coisa, entre os candidatos, surge um perfil com uma motivação particularmente… familiar com a instituição.

Mas atenção, tudo dentro da mais rigorosa ética. O responsável máximo do júri deste concurso, confrontado com um potencial conflito de interesses, faz o que qualquer líder moderno faria: declara-o. Um gesto de transparência exemplar. Como quem diz: “Sim, há aqui um elefante na sala, mas está devidamente identificado.” Mas não se preocupem, a ética está salvaguardada. O líder máximo declarou conflito de interesses. Um gesto digno de aplauso.

E assim, com a elegância de quem passa a batata quente com luvas de seda, a decisão segue para outras mãos. Mãos experientes. Mãos que, por coincidência cósmica, também conhecem bem os corredores da ascensão recente. Muito recente. Tão recente que ainda cheira a tinta fresca no currículo.

Segue-se então, o momento-chave, a substituição no júri, por 2 vezes. E aqui a engrenagem revela toda a sua sofisticação. Entra uma figura recentemente promovida, num daqueles saltos de carreira que fazem a lei da gravidade parecer opcional. Currículo modesto? Talvez. Timing irrepreensível? Sem dúvida. Depois, imagine-se, sai esta figura e entra o dinossauro institucional que já devia estar na reforma.

Mas insistir na ideia de troca de favores seria profundamente injusto. Isto não é troca. É alinhamento. Um sistema afinado onde cada peça sabe exatamente quando subir, quando decidir e, sobretudo, por quem decidir. Harvard devia estar a tirar notas.

E há ainda um detalhe brilhante, ao investir num curso sem alunos, evita-se aquele incómodo de ter de justificar resultados. É a investigação do vazio. A docência potencial.

Equanto alguns insistem em construir universidades com base em alunos, conhecimento e mérito, há quem esteja já numa fase mais avançada, a engenharia de relações.

Mas não sejamos cínicos. Isto não é favorecimento. É meritocracia… com contexto. Porque o mérito, como se sabe, não é uma linha reta — é uma rede. há redes mais fortes do que outras. A universidade aposta nos seus próprios laços familiares. Uma espécie de economia circular onde o talento circula… dentro de casa.

Talvez o problema não seja haver cursos sem alunos. Talvez seja haver sistemas que gastam o dinheiro público de uma forma vergonhosa. É preciso ter vergonha na cara sr. Reitor!

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