I
À primeira vista, vai encontrar uma região organizada, com obra feita, turismo em alta. Mas basta ficar um pouco mais tempo para perceber que há uma regra não escrita: há coisas que simplesmente não se dizem, pelo menos não em voz alta.
Por cá, criticar pode sair caro. Não necessariamente de forma explícita, claro, somos modernos demais para isso. Mas há sempre uma oportunidade que desaparece, um silêncio que se instala. Nada que se prove facilmente.
E depois há o fenómeno curioso dos “círculos fechados”. Empresas que ganham sucessivamente contratos públicos, ligações familiares ou políticas que parecem acelerar carreiras, decisões que, coincidência das coincidências, beneficiam sempre os mesmos. Na construção, vê-se quem constrói. Na educação, percebe-se quem progride. No turismo, adivinha-se quem domina. Tudo legal, tudo formal, e ainda assim, estranhamente previsível.
Outro exemplo interessante: anúncios de combate à corrupção que surgem em momentos politicamente convenientes. Estruturas criadas com nomes fortes, discursos firmes… e resultados que, para o cidadão comum, são difíceis de encontrar. Dá quase a sensação de que se combate mais a perceção do problema do que o problema em si.
Uma democracia… supervisionada, digamos assim. Certos setores parecem funcionar em circuito fechado. Construção, educação, turismo.
Mas o que realmente impressiona é o sentido de timing político. Fala-se em mudanças de regras para permitir permanências mais longas no poder e, como que por magia, surge um gabinete de combate à corrupção. Uma coincidência tão elegante que até merece aplauso. Esse gabinete existe para combater a corrupção… ou para a acompanhar de perto?
E é aqui que entra o seu papel, Senhor Diretor. Porque entre discursos institucionais e a realidade sentida por quem cá vive, há um fosso que já não se disfarça com comunicados nem com boas intenções. Há uma sensação persistente de que certas coisas simplesmente não são investigadas.
alvez descubra rapidamente que, nesta ilha, o mais difícil não é encontrar problemas.
Senhor Diretor, a dificuldade aqui não está em identificar padrões, eles são visíveis para quem quiser ver. A dificuldade está em saber se há vontade real de os enfrentar, especialmente quando envolvem estruturas que parecem demasiado enraizadas para serem incomodadas.
Vai perceber rapidamente que, nesta ilha, a estabilidade é muito valorizada. O problema é quando essa estabilidade começa a parecer proteção. Já ouviu aquela frase: "Já chegamos à Madeira ou quê?!!!" É isso mesmo que irá encontrar.
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